Viés de confirmação: o que é, de onde vem, como evitar

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Nada é impecável, inclusive nossas convicções: todos temos que ter um espírito aberto à crítica.

por Ponto Eletrônico

Você entra na sua primeira aula de yoga. A sensação é de insegurança quanto ao seu peso e como as roupas de yoga, meio que se agarrando ao seu corpo, revelam aquelas partes você não gosta tanto. Vem o nervosismo e a vergonha. Seus olhos instantaneamente procuram as pessoas que parecem ter saído de algum feed do Instagram de tão “perfeitxs”, conversando no canto da sala. Ao passar pelas pessoas seus ouvidos captam o som de riso. “Meu Deus, eles estão rindo de mim?”

Você escolhe um lugar no fundo da sala onde ninguém possa te ver. O instrutor, em voz calma e em tom pausado, pede a turma para se colocar na postura Matsyasana, ou a postura do peixe. 

De repente, BUM! Lá vai você pro chão. Maior barulho.

Você olha para cima para se certificar de que ninguém te viu. Mas o cara ao seu lado está escondendo um sorriso. “EU SABIA – todo mundo está rindo de mim”.

Você desvia o olhar depois da aula, sai correndo e jura nunca mais fazer yoga. E nessa breve cena que pode ocorrer na yoga, na ginástica funcional ou na aula de dança, eis mais uma peça pregada pelo viés de confirmação.

Ou em termos gerias, a tendência humana de buscar, interpretar e lembrar informações que confirmam suas próprias crenças pré-existentes. Mesmo tendo uma série de artigos científicos sob a ótica da psicologia e sociologia, temos um princípio da discussão no século XIV, em uma das passagens de A Divina Comédiaonde Danti Alighieri tem uma visão do Paraíso e, guiado por sua musa Beatriz, cita:

“Muito do que é na terra defendido/ no Paraíso é dado à humana gente/A quem fora por dote prometido”.

Ou seja, desde muito precocemente acerca do estudo  científico é sabida a condição de que pendemos a crer em um conjunto de informações e fatos da nossa mente, formado por anseios e referências anteriores. Até aí nada de estranho, muito pelo contrário, natural. Mas precisamos a todo tempo, ficar atentos ao que esse conjunto de referências forma o nosso pacote de verdades.

Na aula de yoga, você procurou por casos que confirmassem suas inseguranças – os alunos mais avançados, que você poderia jurar, que estavam rindo da sua falta de jeito com aquilo. Às vezes, nem estavam.

Você ignorou os prováveis alunos que como você estavam na primeira aula, porque eles estão fora do radar das suas inseguranças – inclusive, mal perceberam seu desastroso tombo. É realmente uma cilada que armamos pra nós mesmos. Isso afeta todas as escolhas que você faz, diariamente. As coisas que você escolhe comprar, sua saúde, com quem escolhe se casar, sua carreira, suas emoções e suas finanças. Tudo acontece em segundo plano sem você perceber.

Como o viés de confirmação funciona?

O viés de confirmação nos afeta de três maneiras:

A forma que buscamos informações

O viés de confirmação afeta a maneira como você olha o mundo ao seu redor. Quando você está em casa desanimado, entra imediatamente em alguma rede social. Você vê fotos de pessoas Na 5th Avenue em Manhattan, em uma mesa de bar com os amigos, se casando na Costa Rica, em um festival de música incrível em um gramado enorme na Escócia. Primeiro pensamento: todos que eu conheço estão vivendo uma vida interessante e sensacional. E diz a si mesmo: “Que merda de vida, a minha”.

A sensação obviamente, péssima – tudo porque optou por buscar informações que confirmam seus sentimentos ruins. Você sabia que olhar para essas fotos faria com que se sentisse pior, mas as procurou de qualquer maneira.

A forma que interpretamos as coisas

O viés de confirmação também afeta a maneira como você processa informações neutras – e tende a favorecer suas crenças.

Quando você está se apaixona, não se nada no parceirx além de perfeição. Você não percebe uma única falha. Quando esse relacionamento por ventura acaba, tudo o que você vê são falhas – o hálito de café, os assuntos repetitivos, os fios de cabelo na pia. Você está namorando exatamente a mesma pessoa, mas percebe as coisas que ela faz de maneira diferente, com base em como você se sente.

A forma que lembramos das coisas

Até suas memórias são afetadas pelo viés de confirmação. Você interpreta e possivelmente até muda memórias e fatos em sua cabeça com base em suas crenças.

Exemplo simples: taxa de vacinação no Brasil. Já é de conhecimento que não estamos batendo as metas de imunização da população brasileira e a OMS apontou aumento nos casos de rubéola e poliomielite. Dentre os vários fatores, como crises de ordem política e econômica, um dos motivos é simplesmente um pensamento errôneo das pessoas que são patologias já superadas, visto que os riscos eram muito maiores na época de nossos avós. Simplesmente, estamos tratando essas doenças como “coisa do passado”, não vendo mais importância em manter o calendário de vacinação das nossas crianças em dia.

Não deveríamos (ou deveríamos?), mas nos perguntamos: “Por que eu sou assim?”

Você procura evidências que confirmem suas crenças porque se depara com o fato de que  estar errado é muito ruim. Estar errado significa que você não é tão inteligente quanto pensava. Então você acaba buscando informações que confirmam o que você já sabe .

Em um experimento na Universidade de Stanford, sobre a opinião popular sobre a queda das taxas de criminalidade estar associada à aplicação de pena de morte na legislação dos estados americanos, foram apresentado os dados oficiais dos estados onde a pena de morte era aplicada e mesmo assim as taxas de criminalidade não eram menores em relação aos estados onde não se praticava tal sanção. A conclusão dos pesquisadores foi que “a dança da chuva não trará chuva”. Quando são apresentadas evidências contrárias às crenças inicialmente políticas (e por consequência, sociais e comportamentais no caso), as áreas do cérebro associadas à dor física se tornaram mais ativas – é como se estar errado machucasse fisicamente .

É fácil aceitar pontos de vista opostos quando se trata de coisas com as quais você não se importa. Mas você também tem crenças enraizadas que formam uma parte central de sua identidade. Por exemplo, se você é uma pessoa gentil, suas opiniões políticas são tidas como corretas (sim, todos lembrando dos parentes e vizinhos que são do outro espectro político, nesse momento). Evidências contrárias a essas crenças geralmente causam dissonância cognitiva – um sentimento de imenso estresse e ansiedade.

A dissonância cognitiva desencadeia uma resposta de luta ou fuga – ou você mergulha nos calcanhares e dobra suas crenças existentes (lutando) ou se afasta do fato oposto (fugindo).

O objetivo principal do seu cérebro é autoproteção – isso se aplica ao seu eu físico e psicológico. Quando fatos opostos desafiam sua identidade, seu cérebro percebe a ameaça psicológica e o protege como se fosse uma ameaça física real.

Muita coisa para processar

É preciso um tremendo esforço para sustentar hipóteses opostas e tentar avaliar evidências a favor e contra cada uma.

Portanto, seu cérebro otimiza o atalho mais rápido para uma solução. É muito trabalho avaliar informações contraditórias e descobrir o que é certo. É mais fácil procurar duas ou três coisas para apoiar o seu ponto de vista atual.

(sério, cê jura?)

Plano de fuga

 

1. Aborde a vida com curiosidade, não convicção

Quando você entra interage tentando provar que está certo, vai fatalmente sucumbir ao viés de confirmação.

A psicóloga e pesquisadora Carol Dweck nos anos 90 realizou um estudo para Universidade de Columbia com dois grupos de crianças na escola. O primeiro grupo evitou problemas desafiadores porque apresentava um alto risco de estar errado. O segundo grupo procurou ativamente problemas desafiadores para a oportunidade de aprendizado, mesmo que eles estejam errados. Eles descobriram que o segundo grupo superou consistentemente o primeiro.

Concentre-se menos em estar certo e mais em experimentar a vida com curiosidade e admiração. Quando você está disposto a estar errado, você se abre para novas idéias.

Nós aqui na Box, pesquisadores que somos, nos deparamos diariamente com essa máxima.

2. Procure e entenda as divergências

Compreender vários pontos de vista pode ajudá-lo a refinar sua perspectiva. Segundo os pesquisadores, você pode realmente mudar suas crenças arraigadas . O truque? Cerque-se de uma variedade de pontos de vista opostos .

Digamos que você esteja comprando uma casa e que você amou uma em particular. Peça a um amigo para bancar o advogado do diabo e propor razões para não comprar-la. Dessa forma, você pode ter certeza de que está vendo mais do que apenas o seu ponto de vista e tomar uma decisão racional.

3. Pense em pensar

Para lutar contra preconceitos cognitivos, você precisa avaliar suas reações instintivas.

Na próxima vez que você se deparar com fatos que confirmam completamente sua visão de mundo, pare. Pense nas suposições que você está fazendo e procure maneiras de provar que está errado.

Digamos que você seja um amante do café – você precisa daqueles X cafés diários para que foco e disposição caminhem da melhor maneira. Quando você está navegando no seu feed, artigos e posts divulgando os benefícios do café instantaneamente capturam sua atenção.

É fácil ler esses artigos e dizer “Ah, isso confirma a minha escolha”. Na próxima vez que você se pegar fazendo isso, tente procurar ativamente por informações que contradigam o que você acredita.

 

Concentre-se menos em estar certo e mais em experimentar a vida com curiosidade e admiração. Quando você está disposto a estar errado, você se abre para novas idéias.

 

Em suma, o viés de confirmação é uma parte inevitável de como você toma decisões. É uma característica evolutiva que define como você vê o mundo, e não é algo que você sempre possa superar.

Mas quando você toma grandes decisões – sobre sua saúde, finanças, vida amorosa – você quer atenuar sequelas o máximo que puder. Aprender e entender como o viés de confirmação funciona oferece a oportunidade de compensar suas desvantagens e tomar decisões mais racionais.

Seja você, independente de quem está olhando. E se manter receptivo a aprender, pode ser uma das melhores coisas que as pessoas ao seu redor possam vir a notar.

 

 

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