O que pode ser revolucionário e inovador na mobilidade urbana?

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Carros sem motorista, veículos voadores, fantasias futuristas como transportes por helicóptero. A verdadeira revolução da mobilidade urbana já está bem fundamentada e descrita no papel: os planos setoriais engavetados, aguardando a ação do poder público.

por Carol Guimarães Foto Nathália Segato

A mobilidade urbana é responsável pelo acesso e experiência das pessoas nas cidades. A mobilidade é uma política fim e também meio, já que para garantir que investimentos como saúde e educação sejam bem-sucedidos, as pessoas devem poder chegar a estes.

Em um país em que 85% da população vive em cidades, a melhoria da qualidade de vida perpassa por uma boa mobilidade urbana, para assim garantir o direito à cidade. Mas não é bem isso o que acontece na maior parte do mundo, uma vez que as cidades ainda são movidas pela lógica do automóvel. Por exemplo, por mais que o transporte público seja o principal modal de locomoção da capital paulista, ele ainda não é priorizado em termos de investimento.

O trânsito caótico, com quilômetros de congestionamento, somado à lotação, à baixa frequência e acessibilidade, preços altos do transporte público, além da falta de investimentos satisfatórios em infraestrutura para caminhabilidade e bicicleta ainda estão muito aquém da demanda, resultando em horas perdidas no deslocamento diário.

Mas a solução para esse cenário não precisa ser high-tech ou mirabolante. Em um mundo altamente tecnológico, inovação tende a ser traduzida em invenções de alta tecnologia e ideias futurísticas. Carros voadores ou autônomos (sem motoristas), ou até mesmo transporte por helicópteros são comumente citados como resposta a desafios atuais. Porém, aterrissar e buscar soluções mais “feijão-com-arroz” trarão a transformação que precisamos para o nosso futuro urbano. A inovação deve ser inclusiva e terrestre e já sabemos o que deve ser feito. Agora o que falta é vontade política para implementá-la.

Na realidade, a inovação é disruptiva dos modelos antigos, muitas vezes respondendo à inércia pública e à lentidão do sistema, enquanto a tecnologia pode trazer abordagens importantes em relação às deficiências e gargalos do sistema atual.

 

Tecnologia sozinha não é a resposta

O viés comercial de muitas start-ups que respondem às necessidades atuais de mobilidade, conectando melhor oferta e demanda, podem atropelar possíveis dinâmicas urbanas e até causar externalidades negativas. Isso ocorre, muitas vezes, porque as empresas não preveem seus efeitos no mercado que se estão inseridas, devido a um inesperado êxito e adesão de público.

A resposta não é inibir esses serviços, até porque eles vão se adaptando ao longo do tempo para se inserirem melhor no mercado em que se encontram, como é o caso do Uber, da 99 e até mesmo da Yellow, ao pleitear o espaço de “última milha” no escopo da mobilidade urbana para tentar não competir com o transporte público.  Porém, em uma cidade as pessoas devem ter opções em todas as partes de seu território. Hoje, viagens por aplicativos ainda têm um grande desafio de inserção em territórios mais periféricos, no caso de São Paulo e Rio de Janeiro.

Para ter impacto, a inovação aqui deve considerar escala e acessibilidade, especialmente considerando a diversidade e desigualdade marcante em nosso país. O sistema deve ser pensado com um viés social, considerando diversas rendas e públicos.

A tecnologia pode e deve ajudar a trazer soluções inovadoras, mas o transporte público permanece como a nossa melhor aposta. O único futuro possível, portanto, é coletivo. Quem nunca reclamou do trânsito ou até mesmo da poluição? Porém, ao escolhermos o carro, por opção ou falta dela, viramos trânsito e causadores de poluição. Somos todos responsáveis pelo cuidado com a nossa cidade. Independente de quão bem nos protejamos em condomínios fechados e carros à prova de balas, continuamos vivendo em uma comunidade urbana. O impacto individual vira coletivo. A inovação tem que ser para todos.

Não é incomum em países em ascensão ter um modelo de mobilidade urbana insustentável, onde a mobilidade piora com o crescimento da renda das pessoas. Os incentivos ao transporte individual motorizado (carro e moto) ainda são expressivos e se sobrepõe ao investimento dos governos para o transporte público.

Em São Paulo, atrasos em obras viárias e diminuição de verbas para corredores de ônibus, que deveriam aumentar sua eficiência e o torná-los baratos, junto a aumentos anuais nas passagens deste modal, criam um círculo vicioso. Este movimento, por sua vez, piora o cenário, já bastante afetado, que vem sentindo a queda de usuários de ônibus devido a inúmeros indicadores de qualidade deste meio de transporte, avaliado com um baixo nível de satisfação na pesquisa de Mobilidade Urbana realizada pela Rede Nossa São Paulo e Cidade dos Sonhos em 2017. Esse dado contrasta com uma tendência de melhorias registrada desde 2008. É interessante notar que na mesma pesquisa 80% dos paulistanos apontam interesse em deixar o carro na garagem se tivessem uma melhor alternativa de transporte.

Consequentemente, se não priorizamos investimentos no transporte de massa, com ciclovias e ruas para a mobilidade ativa, estamos reforçando o privilégio de poucos às custas de muitos. Ou até mesmo não lhes dando a opção de escolha. Afinal, continuaremos oferecendo cada vez mais regalias aos carros, que ficam a maior parte do tempo parados e se utilizam de um dos recursos mais valiosos da cidade: o espaço público.

 

O ovo ou a galinha?

Então não sabemos o que fazer? Ou, por onde começar? Não é bem assim. Frustrante é constatar que há planejamento, já existem planos desenvolvidos com participação pública, horas e horas de tempo e esforço já foram gastos pela gestão pública e cidadãos que almejam uma vida urbana mais sustentável, mas que nunca saem do papel. No caso de São Paulo, podemos citar o Plano de Mobilidade, o Plano de Segurança Viária, Estatuto de Pedestre, Plano Cicloviário, Plano Diretor Estratégico e outros tantos que incluem a mobilidade como eixo transversal para seu sucesso.  Sem falar da Lei de Mudanças Climáticas de 2009 que previa que toda a frota até 2018 utilizasse combustível renovável não fóssil. Porém, interesses comerciais e desculpas sobre viabilidade financeira atrasam esse direito garantido.

A revolução é o “feijão-com-arroz”

A cidade não começa do zero a cada gestão, pelo contrário, a continuidade de planejamento nos dá uma visão de cidade a longo prazo.

Nesse sentido, é fundamental que conheçamos mais o arcabouço legal que já existe em nossas cidades, nos mantendo atentos aos planos de governo dos futuros candidatos e cobrando o que nos custou tempo e dedicação para construir como sociedade. Vale ressaltar que já temos um legado e queremos colocar em prática direitos que vão ajudar a todos nós a chegarmos com mais dignidade a nossos destinos finais.

A nova tendência e revolução, portanto, é garantir direitos. Nunca antes, pôr em prática o direito a cidade foi tão importante.Se um dia quisermos ser a Holanda e termos “bons problemas”, como a dificuldade de achar vaga para nossas “magrelas” nos bicicletários de uma estação de trem, devemos, de uma vez por todas, tomar as rédeas da nossa vida urbana.

Toda mudança é disruptiva e causa impactos a vários. A institucionalização de novos hábitos vira cultura e, aos poucos, se estabelece como o novo “normal”. Basta lembrar que, nos anos 90, muita gente reclamou da lei que tornou obrigatório o uso do cinto de segurança no Brasil. Hoje, ninguém questiona. Mais recentemente, o mesmo aconteceu com a abertura da avenida Paulista para os pedestres aos domingos. E, lá fora, não foi diferente. Medidas como fechar a margem do rio Sena para carros em Paris ou impedir o acesso do carro no centro de Madrid também foram todas medidas impopulares em nome do coletivo urbano.

Nos acostumamos com coisas que não necessariamente nos fazem bem ou bem ao coletivo, como respirar ar impuro, por exemplo. Pensar no bem da cidade, no bem comum, é complexo. Muitos políticos deixam de ser reeleitos por criarem desconforto a curto prazo em nome de uma visão a longo prazo.

Por fim, as cidades que inspiram são aquelas onde temos segurança para ir e vir, aquelas que contam com uma infraestrutura para mobilidade ativa e transporte público acessívele é a este modelo que devemos nos voltar. Não podemos nos iludir pensando que precisamos inventar soluções mirabolantes quando não conseguimos nem alcançar o básico, como calçadas acessíveis para todos. Precisamos continuar insistindo pelo que já está garantido por lei, mas que ainda não se tornou realidade.  Precisamos diminuir esse abismo, entre o planejado e o realizado.

Posteriormente, talvez quem sabe, pensaremos em heli-uber. O revolucionário agora é implementar os planos para que todos tenham garantias mínimas de transitar pela cidade.  Este, sim, representará o verdadeiro avanço da nossa sociedade.

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