Pessoas que admiramos: Vitória Cribb

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"Estamos em meio a uma grande mudança de relações, não só pela virtualidade mais constante entre trocas interpessoais mas pelo valor que essas trocas geram em forma de dados para determinados setores da sociedade."

por Ponto Eletrônico Fotos e Vídeo Zdravko Cota

São muitas as possibilidades a partir de entendermos a troca constante de códigos, comportamentos, expressões e vozes ao nosso redor. Nós aqui na Box, admiramos uma artista da zona oeste carioca que nos convida justamente nessas bases, a outros patamares em quaisquer uma de nossas áreas de atuação, em busca de cenários mais plurais, mais abrangentes e harmônicos, em nossas diferenças. Aqui no Brasil e fora também, expondo sua arte em vídeo em um dos locais de maior visibilidade no planeta: os letreiros da Times Square, em Nova Iorque. Vitória Cribb é uma das pessoas que admiramos, e conversamos um pouco com ela:

 

PE – Primeiramente, precisamos te agradecer pela conversa e mostrar para todas as pessoas quem ainda não te conhecem ou te conheceram agora – quem é e de onde veio a Vitória Cribb?

Meu nome é Vitória Cribb, tenho 23 anos, sou filha de pai haitiano e mãe brasileira nascida e criada em Campo Grande – Rio de Janeiro, Brasil. Estudo Desenho Industrial na Escola Superior de Desenho industrial pela UERJ e também sou artista transdisciplinar.

 

PE – Seu sustento vem através do produto de sua arte atualmente?

Na verdade eu ainda não vivo de arte. O meu sustento pessoal acontece através do Design que é a minha área de formação (em curso) porém paralelamente eu sigo com a minha pesquisa e investigação na representação através de novas mídias e mescla dessas mídias com a realidade presente. Esse é meu lugar pleno de interesse em relação aos movimentos contínuos da humanidade perante a tecnologia, estética, funcionalidade e representação.

PE – Das linguagens clássicas/acadêmicas das quais você teve contato, quais delas foram de fato para dentro do seu trabalho?

Como a minha formação é na área do Design (Comunicação Visual e Projeto de Produto) eu acredito que o estudo de formas e representação da informação em diversas mídias foi crucial para a exploração da virtualidade nos meus trabalhos. Comecei a representar artisticamente através do 3D por volta de 2015 explorando a representação conceitual de temáticas que me interessavam na época e conforme os anos foram passando eu fui explorando maneiras de materializar essas concepções sem anulação da materialidade presente nos espaços. Sem dúvida estudar e pensar a forma do produto para o usuário também teve um papel fundamental na escolha da técnica (modelagem/simulação 3D) geralmente utilizada na criação de modelos digitais no desenvolvimento de projetos de produto. Essas questões tão evidentes no Design também facilitam na concepção e estruturação das minhas instalações.

PE – Como uma clássica representante da Geração Z, que tanto falamos aqui na Box 1824, o que de likes,shares e atividades em social media contribuem nessa composição?

Para mim os likes não tem um impacto direto na minha criação ou disseminação do meu trabalho. A rede funciona muito mais como uma ponte e possibilidade de diálogos com outros universos e pessoas. Através da troca e diálogo presente na rede encontro oportunidades para criação conjunta ou acesso a determinadas plataformas e redes de colaboração. Acho que a potência está no compartilhamento e alcance de uma determinada obra ou exposição. Pela rede social eu conheci diversas plataformas que abraçaram minha pesquisa e experimentação ao longo dos anos uma delas foi o Piscina.Art que atualmente faço parte como artista e também o Lightbox NYC, plataforma que abriu espaço para minha pesquisa na plataforma online como também em projetos físicos, como a última exposição na Times Square.

 

Foto por: Zdravko Cota
Foto por: Zdravko Cota

PE – Agora vamos falar um pouco sobre esse passo sensacional que foi o “Anthozoa”, seu trabalho exposto nos painéis da Times Square, em New York City. O que ele retrata? Qual é a provocação?

A video arte “Anthozoa” / “Antozoários” retrata um possível fundo do mar suspenso em uma construção vertical nova iorquina que protagoniza a solidão e o eterno looping que é a rotina em grandes centros urbanos através da representação de corais e anêmonas (ambos pertencentes à classe dos Antozoários) de forma humanizada e solitária em alusão ao movimento séssil (imóvel) deles na natureza em analogia ao comportamento “sedentário” do ser humano perante as movimentações e relações sociais estabelecidas atualmente pautadas na movimentação intensa em diversos eixo da vida na ilusão de que há mudança quando na verdade continuamos estáticos tentando provar nossa eficiência profissional e emocional a qualquer custo em um eterno looping, recurso também utilizado no vídeo.

 

PE – Para onde o seu trabalho está caminhando após o Anthozoa?

Após a exposição na Times Square o meu trabalho sem dúvidas ganhou mais visibilidade nacional, o que é bem curioso. Estou recebendo alguns convites para entrevista e muitas mensagens de pessoas curiosas e que conheceram meu trabalho através da exposição. A exposição foi ótima pois ocorreu exatamente em um momento de maior maturidade do meu trabalho o que me ajudou a visualizar melhor possíveis caminhos e projetos para minhas criações artísticas.

ASSSITA AQUI (video por por Zdravko Cota):

VitoriaCribb_TimesSquare_FullVideo_1

 

PE – E você vem trocando infos com outros artistas mundo afora?

Bastante. Desde o início da minha pesquisa eu venho utilizando o Instagram como ferramenta de exposição e troca. Lá consigo acessar pessoas não só de outras partes do mundo, como principalmente, do próprio Brasil. A internet me ajudou muito a estabelecer redes com artistas virtuais, sonoros e que pesquisam a mídia digital de diversas formas para além do video e isso definitivamente teve um impacto muito positivo no meu trabalho. Em 2018 eu conheci a artista Anelena Toku em um festival após ela conhecer o meu trabalho através do Instagram essa exposição já possibilitou uma troca mais intensa não só com ela mas também com o projeto sonoro Fronte Violeta assinado pelas artistas Anelena Toku e Carla Boregas em São Paulo, por exemplo. Isso na minha realidade é muito significativo justamente por estar longe dos espaços institucionais fisicamente e pela configuração da cidade onde moro.

Definitivamente a internet tem um caráter expansivo e positivo na disseminação do meu trabalho, até o momento.

PE – Está nascendo alguma característica emergente na qual a arte vai se basear para os próximos anos?

Acredito que as chamadas “novas mídias” e as mídias não tangíveis como o som nos trazem perspectivas intimistas e nos direcionam para lugares pouco acessados em um contexto artístico. Não posso afirmar que a arte irá se basear nisso futuramente mas sem dúvidas esses novos eixos vão fervilhar, estamos em meio a uma grande mudança de relações, não só pela virtualidade mais constante entre trocas interpessoais mas pelo valor que essas trocas geram em forma de dados para determinados setores da sociedade.

Entender e investigar processos tecnológicos, eletrônicos e virtuais e a relação do ser humano com essas plataformas é inevitável.

 

PE – Como você se mantém inspirada?

Acho que boa parte da inspiração vem da constante observação e questionamento das minhas emoções entre minha relação com a imagem virtual, seja ela em movimento, estática, representativa, fotográfica e da vontade de explorar mais e mais maneiras de representar conceitos da ordem não virtual nesse ambiente imaterial.

PE – Na da sua vida pessoal, nos rolês onde você está inserida, quais outros artistas deveríamos ficar atentos?

Dentro da experimentação imaterial eu gosto muito das pesquisas dos dos artistas sonoros Anelena Toku e Carla Boregas (Projeto Fronte Violeta – SP) que investigam o som e o seu comportamento em diferente ambientes em conjunto com outros sentidos, Ramon Silva (Projeto OLHO – São Gonçalo) que investiga e explora memória, imaterialidade e autoconhecimento através da sonoridade eletrônica e o projeto musical Naves Cilíndricas (Gabriel Junqueira – RJ). Na experimentação visual e digital eu me interesso muito pela pesquisa da artista Indiana REDGRITS e do artista brasileiro Wisrah Villefort. Outra artista muito potente é a Micaela Cyrino – SP que tem um trabalho performático muito potente sobre o corpo negro feminino e seus atravessamentos.

Acho importante ficarem de olho também no Coletivo Trovoa, que tem como foco o trabalho e pesquisa de artistas racializadas no Brasil.

 

PE – Dentro do recorte de classe e raça no Brasil, a quantidade de gente que produz arte nem sempre vem do mesmo lugar de quem critica arte. Você tem alguma mudança nisso nos ultimamente, ou consegue ver como podemos encontrar um cenário mais equilibrado?

Acredito que existam mudanças pontuais que estão em evidência mas toda a estrutura ainda dificulta o acesso de artistas distantes socialmente e/ou fisicamente dos espaços de intensa troca artística, no caso da minha cidade. O que é uma pena porque assim a troca fica reduzida e diferentes perspectivas da cidade não se encontram e não se potencializam juntas. Acredito que estar disposto a escutar o que o outro traz e dialogar com o diferente se faz necessário por mais difícil que pareça e não me eximo disso. Existem iniciativas incríveis como o Coletivo Trovoa, por exemplo, que articula e fomenta a produção de artistas racializadas a nível nacional respeitando as diferenças regionais das artistas de cada estado participante, uma articulação que evidencia a produção e pluralidade dessas artistas. Para chegarmos em um cenário mais equilibrado é necessário que as trocas se estabeleçam nas diversas frentes da arte e que a experimentação e troca sejam intensas para que linguagens se encontrem com menos atrito e quem sabe de forma mais harmônica.

PE – Dá para perceber a sua existência, enquanto mulher preta, periférica, que mora em região metropolitana, reflete no seu trabalho. De que forma entidades e grandes empresas podem se conectar de forma menos extrativista e mais participativa com esses grandes grupos (ainda bastante silenciados), através das várias expressões artísticas?

Acredito que estabelecer um troca sincera e transparente é essencial. Fomentar iniciativas fora da centralidade artística também é necessário para além do apoio direto às expressões advindas desses lugares é importante olhar com respeito buscando entender como ajudar e/ou aproximar uma determinada estrutura artística de forma a evoluir em conjunto com determinado núcleo cultural presente. Entender expressões distintas e sua localidade sem desvalidar algo a partir de parâmetros construídos e pautados a partir de preconceitos intelectuais e/ou estéticos. Entender a pluralidade e seus ecos é tão importante quanto simplesmente aceitar.

 

 

 

 

 

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