Os dias de recesso social

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Sobre solidão e processos de socialização - inclusive os riscos, quando a informação se espalha muito, muito rápido.

por Fabio Lafa

Acompanhando várias obras de ficção e (sinceramente) distante das nossas previsões, aqueles dias chegaram. Estamos todos com um único assunto, nas conversas do chat, na matéria da TV, na notícia de portal aberta no celular, na timeline de todos os nossos perfis. A pandemia da COVID-19 colocou um planeta inteiro em uma única pauta, independente quais as nossas áreas de atuação, crenças ou valores. Toda a parte da população mundial que, pode por ventura, já prosseguir com suas atividades dentro de casa o está fazendo (privilégio, sempre bom lembrar) vem planejando medidas, estoques, aportes, alterações das mais variadas no curto prazo, pelo menos até o final do primeiro semestre, para salvar aquele número combinado para os negócios anteriormente.

Mas temos aqui, uma questão: dentro de todos esses valores numéricos, metas e limites, temos nós. Contávamos atingir patamares nos campos pessoal e profissional em cada uma de nossas vidas, muitas vezes contando com ajuda. Com coletivo, equipe, parceiros. As regras mudaram e, nessa semana individualmente nos perguntamos se o “juntos somos mais fortes!” vai permanecer – precisaremos dele mais do que em outras vezes em que falamos ou ouvimos até então.

E dentro desse mood, quem está em tratamento ou prevenção por conta da pandemia está forçadamente restringindo uma das coisas mais presentes no nosso cotidiano: contato. O brasileiro, mais tátil, mais do  coletivo, sofre impacto ainda maior quando a ordem é <não saia de casa> <não toque> <mantenha a distância>. Essa semana conseguimos contornar muito bem esse quadro, intensificando a comunicação com nossos pares, nossos parentes, checando mais vezes nossos pais parentes mais velhos durante o dia. Acompanhando pelo streaming bate papos, inspirações, aulas de yoga, sessões de meditação, DJ Sets. Para que mais ou menos relacionado à questão da pandemia, consigamos diminuir a tensão e manter o ritmo (falaremos mais sobre). Queremos falar sobre alguns pontos de atenção para as próximas semanas, quando os mesmos cantos da casa, por onde percorremos e olhamos começarem a nos fazer lembrar dos trajetos percorridos durante a semana, quando começar a incomodar, quando der no saco ficar dentro de casa. Quando sentirmos falta de pessoas.

 

O neurônio da solidão

 

Fundamentalmente, precisamos de contato das pessoas. Nossas capacidades físicas e mentais são incrementadas com através da socialização, todos sabemos. Nos últimos anos, uma pesquisa do núcleo de neurociência do MIT nos mostrou o comportamento dos receptores de dopamina, muito mais ativos quando estamos em em contato social e ao mesmo tempo readaptáveis, para que certa forma nos “adaptemos” à solidão, praticando a autodefesa de nossos sistemas imunológicos e de bem-estar. “Quando as pessoas ficam isoladas por um longo tempo e depois se reúnem com outras pessoas, ficam muito empolgadas – há uma onda de interação social”, disse Kay Tye, professor do Picower Institute for Learning and Memory em Cambridge, região metropolitana de Boston, Massachusetts.

Temos aí um grande indício que, mesmo com foco na segurança e saúde das pessoas, não podemos perder de vista a necessidade de temos de nos sentir inseridos, parte de algo, e em contato seja lá de qual forma.

E mesmo não perdendo isso de vista, sabemos que ao final dos dias que vivemos, nada nos levará de volta. Estamos face a um evento que impactará nossos processos de comunicação de maneira irreversível.

 

Entendendo os próximos passos

 

Ainda não sabemos ao certo o que será manter uma comunicação quase que totalmente online, forçadamente. De antemão, o mais interessante para tornar esse processo menos complicado, é aceitá-lo. Embora tenhamos aí diversos posts salvos, de vários perfis que falaram sobre isso (nós aqui na Box, inclusive), devemos ainda perceber os reais impactos sobre essas novas regras. Não ficar de pijamas, respeitar os horários e colocar uma boa playlist para produzir são dicas bastante importantes, mas acima disso, seja paciente e mantenha o foco habitual claro, mas sem uma cobrança veemente por excelência – novamente, as regras mudaram. Adapte-se a elas antes.

 

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E a adaptação é necessária a todos os perfis de profissionais que desenvolvem presencialmente, dos extrovertidos aos que só levantam para almoçar e tomar água. Se por um lado você, de um dia para o outro só ouve o barulho da geladeira, pode também ouvir seus pais, roomates, companheirx, filhos, cachorro – ao mesmo tempo.

Para algo mais próximo da relação presencial, faça uso das ferramentas de video conferência, chats, ligações telefônicas (sim, ainda existe!) e plataformas de gerenciamento de projetos – sempre com bom senso. Igualmente no escritório, precisamos respeitar o foco das outras pessoas. Fale o máximo e estritamente necessário que puder. E se você é alguém que precisa de tempo sozinho para pensar ou recarregar as baterias, discuta essa necessidade com os seus em casa e trabalhe para incluir esse tempo em sua programação. Se atente como sua energia diminui e flui ao longo do dia e tente agendar as melhores tarefas para o seu nível de energia de acordo.

 

Falando em recursos da tecnologia…

 

Recursos dos mais variados estão ao nosso alcance para incrementar em nosso bem estar mental, enquanto estamos cuidando do físico – até em nossos núcleos estamos encontramos meios (teremos yoga 2x por semana via Hangouts). Pessoalmente, vai nos faltar em algum momento aquele próximo da equipe que vai vir com o “vai dar tudo certo”. Algumas ações estão preocupadas também com o grupo, o coletivo, que precisará se manter sólido mesmo não estando no mesmo ambiente físico.

Essa semana o blog do Headspace, empresa de saúde online, relembrou algumas ações super necessárias para esse momento – independente da sua posição na equipe, executando, conduzindo ou deliberando:

Olhe: reserve um tempo para fazer o check-in com sua equipe. Procure o não dito. Como estão os níveis de energia das pessoas?

Ouça: Pratique a escuta atenta. Dê à sua equipe espaço para ser aberto e honesto sobre como eles se sentem, tanto mental quanto fisicamente.

Perceba: Todo mundo vai sentir uma gama de emoções diferentes. Dedicar um tempo para reconhecer como alguém está realmente se sentindo nos capacita a responder com bondade.

Responda: Em tempos de alto estresse, é fácil deixar frustrações atrapalhar a comunicação hábil. Faça uma pausa e dê a si mesmo espaço para responder de uma maneira hábil e gentil.

 

Uma perspectiva mais empática

 

A recomendação da sociedade médica quanto às restrições de interação social são obviamente legítimas e precisam ser levadas a sério. Todos devem limitar o contato próximo, interno e externo, apenas aos membros da família. Isso significa adiar jantares, casamentos, festas de aniversário, viagens a passeio ou trabalho e conferências até que a situação esteja sob controle. SXSW, Coachella, Lollapalooza, tudo fica para depois, mesmo. Mas uma boa pedida pode ser nos conectarmos a tudo o que antes, ficava para trás. Nossas conversas com os próximos de casa, a conexão com a nossa casa – mais do que um lugar que decoramos e usamos para dormir e lavar as roupas – e com nós mesmos. Entender que, a paciência que o período nos pede pode ser aplicada em passar novamente pela lista de capacidades que possuímos, fundamentalmente para transformação do que somos, e do que pode levar nossa marca para mudar. Criar novas conexões (mesmo que online) para chegarmos com mais impactos positivos quando isso terminar – porque a certeza é que VAI terminar. Eis o convite. Experimentemos todos, o recesso social. Com uma distância física, claro, mas embasado em foco no que precisa ser feito; fortalecendo nossas conexões, que olham para um mesmo objetivo e entendendo que, tudo ficará bem, e nós também.

Hidratem-se, liguem para seus avós, fora de casa use os cotovelos para tocar o máximo que puderem – e sigamos.

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