Categoria: Moda

Moda
04 de julho de 2013 por Eduardo Biz

Moda sensível ao olhar

Os tecidos inteligentes e a tecnologia vestível são caminhos inevitáveis que a indústria da moda passará a seguir no futuro.

Com uma proposta bastante lúdica e artística, a estilista canadense Ying Gao vem desenvolvendo belíssimos trabalhos que trilham este rumo, no qual o high tech encontra a delicadeza do vestir.

A coleção (No)where (Now)here explora conceitos de ausência e evanescência, inspirada pela “estética do desaparecimento” do filósofo Paul Virilio. São vestidos que se movem diante um espectador: quando mais alguém olha para as roupas, mais elas se mexem.

A magia se dá graças a fios fotoluminosos presentes nas peças, que são embutidas com tecnologia de mapeamento do olhar. Ao contrário do que parece, no vídeo acima as modelos estão estáticas, em total contraste com o movimento de suas roupas.

Além de ser um experiência estética muito interessante, as criações de Gao acendem o debate sobre a necessidade de uma plateia para que a moda possa, de fato, completar seu propósito.

A coleção será exibida em novembro deste ano no Power Station of Art, o novo museu de arte contemporânea de Xangai.

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Moda
23 de maio de 2013 por Eduardo Biz

Vintage sem ser nostálgico

Continuando a discussão sobre a desaceleração do fast fashion, recomendo a breve palestra de Gill Linton no PSFK Conference. A moça é dona da Byronesque, uma loja modernosa especializada em vestuário vintage.

O paradigma que a loja se propõe a quebrar é a costumeira associação do vintage com a nostalgia (ou com o kitch). Em seu discurso, Gill defende que “a nostalgia é inimiga do progresso” e explica como seu negócio encoraja a criação de sub-culturas, as verdadeiras responsáveis por levar a história da moda para frente.

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Eventos, Infográficos, Moda
02 de maio de 2013 por Eduardo Biz

A relação das gerações com as joias

No último dia 23 de abril, um evento em Viena, na Áustria, reuniu mais de 300 joalheiros, formadores de opinião e especialistas no mercado de joias do mundo todo. Trata-se do Link Jewelry Summit.

Promovido pela Swarovski e organizado pelo International Herald Tribune, o evento teve como objetivo mostrar como o mercado global vem lidando com a joia e quais possibilidades de inovação podem ser vislumbradas neste segmento.

Parte do evento foi dedicado a discutir as oportunidades existentes nos mercados emergentes. Rony Rodrigues, fundador da Box1824, esteve presente e falou sobre a relação das pessoas com a joalheria, desde os anos 1960 até hoje, e como cada geração lida com este universo.

 

Segundo Rony, a joia desempenha duas grandes funções. A primeira delas é a Materialização do Sentimento. Analisando historicamente a relação da consumidora com a joia, podemos perceber uma grande diferença entre os Baby-boomers (geração nascida de meados dos anos 40 até metade de 60) e os Millennials (nascidos entre os anos 80 a 2000).

Para os Baby Boomers, a joia está muito associada a uma noção de tempo: tanto pelo despendio de tempo (e esforço) que existiu para que aquela joia fosse adquirida, quanto pela noção temporal de passado, presente e futuro.

Existe uma celebração do passado, no sentido de valorizar tudo que já foi vivido em uma relação a dois; a confirmação do presente, mostrando que a relação é mesmo verdadeira; e uma compromisso com o futuro, assegurando que os caminhos do amanhã já estão bem traçados e definidos.

Já para o jovem Millennial, o sentimento afetivo é muito virtual ― e até efêmero ―, e a joia desempenha o papel de trazê-lo à esfera Real da percepção. É uma concretização que traz o sentimento para o Agora, servindo como comprovação de que aquela relação não é uma mera brincadeira, mas sim uma emoção verdadeira e especial; um amor único e maior do que tudo que já se viveu anteriormente.

Outra função essencial da joia é o Adorno. Desde os primórdios da história da humanidade, o ser humano cobre o corpo, e isso se dá por três motivos: sobrevivência (para se proteger do frio e das chuvas); pudor (é um fator presente desde Adão e Eva) e adorno. A busca pelo realce da beleza alia-se à materialização do poder, encontrando no fato de se adornar sua maior realização.

Porém, ao contrário da Materialização do Sentimento, a joia não está sozinha no mercado quando o assunto é Adorno. Quando uma mulher anseia por poder e beleza, existem outros produtos competindo: o sapato também consegue suprir essa entrega, da mesma forma que a bolsa tornou-se um acessório de altíssima desejabilidade, e até os óculos estão neste grupo de “objetos de desejo”.

Entretanto, a Bijoux ainda não atingiu este mesmo nível de desejabilidade. E é aí que temos a grande oportunidade do mercado: a entrada da Bijoux neste grupo de produtos de alta desejabilidade.

Para que isso aconteça, há três caminhos possíveis:

1. Design é o novo Ouro. O design é a chave para fazer com que a Bijoux alcance o status merecido. O design tem o poder te valorar uma peça superior a qualquer material.

2. Incentivar, Inovar e Amadurecer um varejo especializado em Bijoux, assim como sapato, bolsa e óculos conseguiram. É o mesmo pensamento do fast fashion: ele tornou a moda possível para todas as mulheres. Mulheres querem comprar Bijoux, sim! Mas ainda não sabem onde.

3. Aumentar os cenários e as ocasiões de consumo, criando místicas e storytelling. Nos anos 70, se você perguntasse para uma mulher qual seria a ocasião correta para se usar uma bolsa Chanel, ela citaria cerca de três cenários: Ritz, Saint Tropez e ao lado de um homem poderoso. Karl Lagerfeld fez um trabalho incrível de expansão de cenários e ocasiões. Hoje, você pode imaginar uma menina usando uma bolsa Chanel no metrô de Nova York, numa viagem à Índia ou em uma festa indie em Londres.

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Moda
25 de abril de 2013 por Eduardo Biz

Lições belgas para a moda brasileira

Nas duas últimas semanas, o Brasil recebeu a visita de Karen Van Godtsenhoven, curadora do MoMu, o Museu da Moda de Antuérpia, na Bélgica.

A produção de moda na Bélgica é muito instigante para quem estuda e cria vestuário no mundo todo. Na Antuérpia especialmente, há uma certa mítica que mexe com o imaginário de todo interessado em moda: é uma mistura do exostismo que se supõe existir em uma localidade longínqua com o talento bruto que improváveis cidades costumam originar.

Trazida ao país pelos gaúchos da Radar Consultoria, a moça passou por Fortaleza, Rio de Janeiro e São Paulo. Durante esse tour, tomou um banho de moda brasileira e gostou de muito do que viu. Percebeu a força e o tamanho da nossa indústria e se admirou com as peças em couro criadas por aqui.

Entretanto, não conseguiu chegar a uma conclusão sobre qual seria a verdadeira identidade cultural da moda tupiniquim.

E de identidade os antuerpienses entendem!

Foi exatamente sobre a construção e a consolidação da “cara” da moda belga que Karen discorreu em suas palestras. Sua visão fornece grandes dicas de como nosso país pode criar uma identidade estética mais perceptível, que nos distingua do resto do mundo, e que seja mais unificada mesmo considerando toda nossa pluralidade.

“O Brasil está com uma imagem muito positiva no mundo, e deve procurar o que define ser brasileiro, que pode ser um mix de coisas”, comenta a curadora.

Antwerp 6: Ann Demeulemeester, Dirk van Saene, Marina Yee, Dries Van Noten, Walter van Beirendonck e Dirk Bikkembergs

Mas afinal, como uma cidade de tão pequenas proporções, com um climão interiorano pairando pelas ruas e um baixíssimo senso de orgulho nacional nunca se deixou influenciar por Londres ou Paris, seus vizinhos tão conhecidos por serem poderosos lançadores de moda?

Graças — quem diria — à educação!

Em 1963, foi criado um Departamento de Moda na universidade local, a Royal Academy Of Fine Arts. Lá, os alunos entram em uma espécie de casulo criativo, onde a exigência disciplinar dos professores encuba fortes personalidades.

De lá, já saíram nomes como Raf Simons, Kris Van Assche, Dries Van Noten, Martin Margiela e Ann Demeulemeester. São grandes estilistas que, desde os tempos de universitários até hoje, mantiveram um “signature style” consistente, que sempre os acompanhou e caracterizou.

Nesta lista estrelada de talentos, também vale citar Walter Van BeirendonckHaider AckermannAF VandevorstVeronique BranquinhoBernhard Willhelm e Peter Pilotto.

"Dream The World Awake", exposição de Walter Van Beirendonck no MoMu

Além da rígida educação, um outro fator — também raríssimo no Brasil — contribuiu bastante para o boom da moda na Antuérpia: a ajuda do governo.

Em 1981, houve um plano da indústria para fortalecer a produção da moda local. Parte deste plano foi a criação do prêmio Golden Spindle, que contempla os melhores estilistas do ano.

Mais do que dinheiro, os ganhadores passavam a ter muita visibilidade no mundo. Quem não ficaria curioso em saber porque uma comunidade tão improvável como aquela teria uma premiação de moda? Sem contar que esse advento acirrou uma espécie de competição interna entre os criadores, o que só fez progredir a busca por originalidade e superação de expectativas.

Martin Margiela

O interesse mundial em relação à Antuérpia passou a crescer especialmente a partir de 1986, com a criação do grupo The Antwerp Six. A cidade e a população incorporaram essa “alma fashion” e a moda tornou-se o grande orgulho da cidade.

Hoje, a Antuérpia é um destino muito procurado por aficcionados pelo assunto, especialmente por causa do MoMu. O museu, que tem apenas dez anos de vida, já conta com 25 mil objetos em seu acervo, dos quais metade são peças históricas, e a outra metade são produções contemporâneas.

A visita de Karen nos deixa a reflexão de como educação e apoio governamental são definidores na construção de uma identidade cultural. Em um país cujo orgulho se dilata principalmente por conta da música e do esporte, a moda ainda parece estar de escanteio, esperando ansiosa sua chance de se tornar um ícone da personalidade brasileira.

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UPDATE: vale ler este artigo do The Business Of Fashion sobre a crise de identidade da moda brasileira!

 

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Arte, Moda, Ponto e Vírgula
18 de abril de 2013 por Eduardo Biz

Sobre a estética da imortalidade e o choque contemporâneo

Post Mágico

Phillip Toledano é um grande artista. Entre sua rica produção, o projeto que mais se destaca é uma trilogia (ainda inacabada) sobre a mortalidade.

A primeira parte deste projeto, “Days With My Father”, ficou muito famosa quando foi lançada em 2010. Trata-se de uma série de fotografias que Toledano fez de seu pai em seus últimos anos de vida, sofrendo de perda de memória. São imagens emocionantes, acompanhadas de textos extremamente sensíveis, que resultam em pura emoção e enchem os olhos de lágrimas.

A sequência da trilogia — sobre a qual quero me aprofundar nesse texto — é “A New Kind of Beauty”, que traz imagens desta vez focadas na questão da imortalidade. Aqui, os protagonistas das fotografias são pessoas que passaram por cirurgias plásticas radicais, em busca da perfeição estética e da eterna juventude.

Com efeito chiaroscuro, estes retratos quase remetem a uma beleza clássica, não fossem pelas modificações faciais, implantes, lifts, injeções de colágeno, e todas as suas possíveis combinações. A inspiração de Toledano é o alemão Hans Holbein the Younger, conhecido por pintar os retratos mais realistas do século 16.

As reações a essas imagens são diversas: susto, surpresa, nojo, piedade, risos, repulsa, admiração, desdém… Seja o que for, é inegável que o primeiro instinto ao se deparar com seres tão familiares — e, ao mesmo tempo, tão distantes daquilo que estamos acostumados a conhecer — é uma espécie de choque.

E temos de admitir: hoje em dia, é rara a estética capaz de chocar. Como pode a sociedade contemporânea olhar torto para essas imagens? Logo ela que se diz tão moderna e aberta ao novo; que já viu de tudo e aprendeu a admirar as vanguardas da arte; que se assume plural e confortável com a diversidade?

Ao longo da história da humanidade, cada época se escandalizou com alguma manifestação estética, seja vindo da moda, das artes plásticas ou da subcultura. Ao longo dos anos, porém, a evolução do pensamento sempre passou a assimilar e incorporar essas novidades.

Pense na estética punk, por exemplo, e como ela foi agressiva para os anos 1970. Hoje, é um movimento totalmente agregado à cultura pop. Aliás, um breve olhar histórico já revela diversos outros momentos de choque e escândalo que hoje não assustam nem ao Papa Francisco:

Mulheres tatuadas causando tumulto no final do século 19

No seriado Downton Abbey, Lady Sybil é recriminada por usar calças em pleno 1912

Leila Diniz afrontando o Brasil nos anos 1960. “Transo de manhã, de tarde e de noite.”

O grafite, antes visto como arte marginal, hoje no interior de luxuosas propriedades

São tabus que foram digeridos pela sociedade. Na cultura pop, a tríade “sexo, religião e morte” sempre foi (e sempre será?) sinônimo de falatório. Madonna sabia bem disso quando simulou masturbação no palco, queimou cruzes e sensualizou com santos negros nos anos 1980. Mas a sexualização dos videoclipes daquela época parece bem inofensiva hoje em dia.

O inaceitável de ontem é o bem aceito de hoje. Em “História da Feiura”, o semiólogo Umberto Eco avalia que os conceitos de belo e feio são relativos aos vários períodos históricos e às várias culturas:

“Observamos incrédulos as fotos das atrizes dos filmes mudos sem entender como seus contemporâneos podiam considerá-las fascinantes e não poderíamos, por outro lado, incluir uma mulher rubenesca em um desfile de moda de atualmente. Mas não é apenas o passado que resulta incompreensível: no mais das vezes, os contemporâneos mostram-se incapazes de apreciar o futuro, ou seja, as propostas muitas vezes provocativas apresentadas pelos artistas.”

E é exatamente disso que falam as fotografias de Toledano. Segundo o artista, sua intenção foi representar um lado bastante particular da beleza dos nossos tempos, que mistura métodos cirúrgicos, arte e cultura pop. Seria esta a vanguarda da evolução estética humana? O feio de hoje passará a ser belo daqui a 20, 50, 100 anos?

A russa Valeria Lukyanova e o americano Justin Jedlica, conhecidos como “Barbie” e “Ken” da vida real.

Nietzsche aborda essa questão em “Crepúsculo dos Ídolos”:

“No belo, o ser humano se coloca como medida da perfeição; adora nele a si mesmo. No fundo, o homem se espelha nas coisas, considera belo tudo que lhe devolve a sua imagem. O feio é entedido como sinal e sintoma de degenerescência. Cada indício de esgotamento, de peso, de senilidade, de cansaço, toda espécie de falta de liberdade, como a convulsão, como a paralisia, sobretudo o cheiro, a cor, a forma da dissolução, da decomposição… tudo provoca a mesma reação: o juízo de valor ‘feio’. O que odeia aí o ser humano? Não há dúvida: o declínio de seu tipo.”

A polêmica que o trabalho de Toledano causa não é pouca, vide os comentários dos leitores deste blog argentino que postou sobre o assunto. É uma obra que coloca em pauta nossa noção de realidade. Outra artista muito conhecida pelas modificações corporais — porém com outra pegada — é ORLAN, que no início dos anos 1990 começou a fazer procedimentos cirúrgicos a fim de usar o próprio corpo como plataforma de sua produção artística.

Obras de arte que provocam reações avessas aos nossos padrões de belo são muito definidoras na história da humanidade, e são até capazes de gerar efeitos psicossomáticos como vertigens, falta de ar e alucinações.

Mas são elas as principais responsáveis por colocar em discussão os próximos passos do nosso tempo, ainda assombreados por preconceitos de quem teme a evolução.

“Esta beleza universal que a Antiguidade derramava solenemente sobre tudo não deixava de ser monótona; a mesma impressão, sempre repetida, pode fatigar com o tempo. O sublime sobre o sublime dificilmente produz um contraste, e tem-se necessidade de descansar de tudo, até do belo. Parece, ao contrário, que o grotesco é um tempo de parada, um termo de comparação, um ponto de partida, de onde nos elevamos para o belo com uma percepção mais fresca e mais excitada.” (Victor Hugo em “Cromwell”)

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Moda, Ponto e Vírgula, Tecnologia
16 de abril de 2013 por andre

Habitat Espacial: por que o planeta não é mais o bastante?

Post Mágico

Exploração espacial é um tema que habita nossos imaginários há muito tempo, de Julio Verne à Star Trek e 2001: Uma Odisseia no Espaço, obras que, além das viagens ao espaço, refletem temas fundantes da cultura ocidental: a nossa relação com o tempo, a solidão da condição de espécie inteligente, a expectativa de transcendência e imortalidade até temas contemporâneos como o esgotamento dos recursos e a obsessão pela tecnologia.

The Afronauts, série fotográfica da jornalista Cristina De Middel sobre um projeto de esacalada espacial da Zambia criado pelo professor Edward Makuka Nkoloso em 1964.

O projeto era uma tentativa de levar o primeiro africano à Lua e diminuir o gap tecnológico-científico do país em relação ao restante do mundo.

Se a corrida espacial foi potencializada em 1969 quando Neil Armstrong pisou na lua, o fim da guerra fria e sucessivas tentativas frustradas diminuíram o interesse por esse tema. Em outubro de 2012 publicamos a capa da MIT Technology Review que nos perguntava por qual motivo deixamos de investir na exploração do espaço infinito ou mesmo em  grandes problemas como a cura do câncer ou a massificação de energias renováveis, para trabalhar em criações que contribuem tão pouco para a humanidade. Como o cientista Jeff Hammerbacher bem colocou: “as melhores mentes da minha geração estão pensando em como fazer as pessoas clicarem em propaganda”.

 Buzz Aldrin’s footprint in the moon’s gray, powdery surface.
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No entanto, nos últimos anos a escalada espacial voltou a fazer parte o espírito do nosso tempo. Em 2012 o Kickstarter possibilitou o Edge and Back, projeto dos alunos da 6a série de uma escola de Kentucky nos EUA que enviaram uma câmera ao espaço; a Redbull promoveu a primeira queda livre da estratosfera até o solo; a NASA ultrapassou 3.5 milhões de seguidores no twitter; e Elon Musk, milionário sul-africano fundador do Pay-Pal, anunciou a SpaceX, empresa que presente mandar famílias para passear no espaço em 2025.

O Cinema é sempre um reflexo do inconsciente coletivo, vide a quantidade de filmes que têm explorado o assunto, de Avatar à Prometheus. Importante ressaltar que os filmes de ficção não têm retratado a escalada espacial como um sonho, mas como um destino inevitável e a poucas décadas de distância. Vale lembrar que o TED Talk ficcional de Peter Wayland, dono da maligna corporação de Prometheus que leva a raça humana a investigar suas origens através do espaço, acontece em 2023.

A Moda também é um campo em que é possível enxergar inúmeras referências desse movimento. Um bom exemplo é o Haute Joaillerie,  curta belíssimo criado pelo diretor Jérémie Rozan para Louis Vuitton em 2012 que nos leva a uma incrível jornada pelo planeta vermelho:

A grande mudança que estamos vivendo é que no lugar de exploração espacial, passamos a tratar o tema como expansão espacial. Ou seja, ao invés de descobrir vida em outros planetas, fala-se em habitação interplanetária. Além disso, se os programas governamentais financiaram a exploração do universo no passado, hoje a habitação espacial também passou a ser promovida por iniciativas privadas que falam em turismo e até colônias espaciais. Por um lado a NASA anunciou o Transiting Exoplanet Survey Satellite (TESS), projeto que será lançado em 2017 para buscar novos planetas, enviará astronautas a Marte em 2030; além de produzir o “We are the Explorers”, vídeo que será passado nos cinemas antes do novo filme da saga Star Trek sobre as novas empreitadas da organização:

Por outro lado a iniciativa privada Mars One tem a ambição de estabelecer uma colônia humana em Marte em 2023 [sim, você realmente leu 2023]. Criado pelo empresário holandês Bas Lansdorp, o projeto conta com o apoio e financiamento de cientistas, engenheiros e companhias aéreas de diversos países, além de um curioso time de embaixadores, do físico vencedor do prêmio Nobel Prof. Dr. Gerard ‘t Hooft a Paul Römer, criador da série de reality shows Big Brother. A participação de Paul Römer não é pura coincidência, uma vez que o planejamento, seleção dos astronautas até o pouso e construção da colônia no planeta vermelho serão transformados em um grande reality show. A ideia é que o público escolha aqueles que darão o próximo grande passo da humanidade:

Parece absurdo? O recrutamento da missão ainda não começou e Mars One já recebeu mais de mil candidatos. Também vale lembrar que o astronauta canadense Chris Hadfield virou uma celebridade depois que passou a documentar sua vida na Expedição 35. Só o vídeo em que ele mostra como seria chorar no espaço já acumula mais de 1.5 milhões de views.

Nos próximos anos, a Habitação Espacial será um tema cada vez mais reincidente na cultura de massa. Comunicadores, produtores de conteúdo e inovadores devem buscar inspiração neste assunto e enxergar os valores que estão por tras desta microtendência.

No cinema dizem que a viagem – ou a jornada – é a grande metáfora da cultura ocidental para a transformação do sujeito. Nesse sentido, o interesse crescente por viagens espaciais é reflexo de transformações que pairam no ar, como a valorização da racionalidade que transformou cientistas nos novos rockstars ou mesmo o [crescente?] desejo de escapismo em meio a crises econômicas e problemas mundiais que são aparentemente insolúveis. Se por um lado a tecnologia nos trouxe o sabor da onipresença através do encurtamento do tempo e do espaço, flertamos com a habitação espacial e suas extensas jornadas como um resgate da longa temporalidade. Arriscaria ainda dizer que, sendo este um lugar onde o som não se propaga, o espaço seria enfim uma possibilidade de silêncio, contemplação e recomeço. Em outras palavras, a promessa de um novo paraíso.

imagens do ensaio da revista Select em que artistas criaram imagens de Marte como o paraíso humano do século 21. Acima, José Resende

Greg Bousquet, arquiteto da Tryptique

 

UPDATE: pra você que cansou desse planeta, a seleção da Mars One de candidatos para morar em Marte irá começar em Julho. Serão 24 selecionados até 2015 e, em seguida, 7 anos de treinamento até a partida da primeira tripulação em 2023. Ah sim, vale lembrar que a viagem é só de ida. Segundo o CEO da organização, Bas Lansdorp, eles esperam um milhão de inscrições no formato de vídeos de um minuto. Se interessou?

 

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Moda, Música
15 de abril de 2013 por nina

O hino fashion da geração Y

Se você costuma acompanhar os novos artistas pop que aparecem no rádio e no top 10 da MTV já deve ter ouvido o som do Macklemore, um rapper de Seattle que estourou na Internet em 2012 com seu novo álbum, The Heist, que atingiu o 1º lugar na iTunes Store em sua primeira semana de lançamento. Uma verdadeira surpresa para um artista até então desconhecido pelo grande público.

O grande sucesso veio com o vídeo do single “Thrift Shop”, hoje com mais de 232 milhões visualizações no Youtube. Isso porque, além da batida e refrão chiclete, a letra egraçadinha desse rap explora a realidade da juventude atual que, em tempos de crise econômica e debates sobre a ética e sustentabilidade da moda, sabe usar a criatividade para criar um estilo que seja barato e singular. Um hino hipster que exalta a existência dos brechós e que é também um belo tapa na cara das marcas de elite e fast-fashions. Assista:

Hino hipster? Sim, o termo que começou a ser utilizado em Nova York no início dos anos 2000 é uma derivação da palavra “hip”, algo que pode ser entendido como inovador, trendsetter. A cultura hipster é marcada por tudo que é independente, alternativo, divertido, saudosista e non-mainstream. Autenticidade é palavra de ordem, exatamente o que a letra exalta.

Mas o rapper também tem músicas mais sérias que igualmente refletem as questões do nosso tempo. Nadando contra a maré do meio homofóbico do hip-hop, Macklemore apresenta seu apoio gay na música “Same Love”. Na letra, o rapper estimula o casamento homossexual (“No freedom till we’re equal – damn right I support it”), questiona o fanatismo religioso (“God loves all his children is somehow forgotten/But we paraphrase a book written thirty-five hundred years ago”) e cutuca o meio hip-hop (“If I was gay, I’d think hip-hop hates me … A culture founded in oppression/Yet we still don’t have acceptance for ‘em”). Confira abaixo o emocionante clipe desta música:

Bom, se você curtiu o cara tanto quanto eu e quer saber mais sobre sua música, clique aqui para assistar a um curta-documentário que apresenta um pouco sua biografia e o making-of do videoclipe “Thrift Shop”.

I’m gonna pop some tags…

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Moda, Tecnologia
09 de abril de 2013 por nina

A tecnologia e a curiosidade fashion

Chega de babar à toa pelos looks das famosas na telinha da TV: a nova tecnologia veio facilitar a vida dos fashionistas de plantão. Até então, se a gente se apaixonava por um vestido usado pela Marnie num episódio de Girls, por exemplo, tinha que correr para o Google ou Yahoo! Respostas e torcer pra ver se alguém sabia dizer de onde era aquela peça bafônica.

Mas agora o Shazam, aquele aplicativo que descobre qual música está tocando, promete mudar a forma que você vê televisão. A empresa expandiu sua tecnologia de identificação de áudio para buscar informações de programas da TV. Com o aplicativo, os usuários podem decodificar o som da telinha durante um programa para obter informações como curiosidades, biografias do elenco e anúncios de mercadorias. E aí vem o pulo do gato: é com este recurso que o Shazam está buscando aumentar o envolvimento do consumidor, permitindo descobrir o que o elenco está vestindo e possibilitando a compra imediata em uma loja online.

Não é magia, é tecnologia! Lembrando que o Shazam não decodifica a imagem da TV, mas seu áudio. Louco, não? O aplicativo busca eliminar o intermediário, ou seja, o trabalho de ter que ir até o Google (ou ligar para a Central de Atendimento da Globo… alguém?) e tentar descobrir alguma informação. O aplicativo leva o conteúdo diretamente para o usuário, em tempo real. Uma forma inovadora de engajar os telespectadores muito além do programa enquanto, ao mesmo tempo, transforma-os em consumidores imediatos.

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Moda
05 de abril de 2013 por andre

MODA E CROWDFUNDING

Moda é uma indústria em crise. Além das polêmicas em torno da mão de obra ou das criações dos estilistas, muito se fala sobre um grande sentimento de esgotamento dos profissionais gerado, entre outros motivos, pela dinâmica acelerada que o fast fashion instituiu. Há algum tempo falamos aqui no Ponto Eletrônico sobre a Hipersazonalidade, movimento que intensifica ainda mais esse ritmo, aceleração essa que afeta em especial criadores que sentem sua arte massacrada por prazos e cifrões. Por um lado, alguns especialistas apontam o fim do fast-fashion, mas por outro prefiro refletir sobre as transformações que a cultura digital ainda pode trazer para a moda.

Na última década a dinâmica do universo fashion foi virada de cabeça para baixo à medida que a crítica, a opinião e o conhecimento foram descentralizados pela lógica de rede. Ainda que as “blogueiras de moda” sejam odiadas por muitos, é inegável sua representatividade de empoderamento das pessoas e novas possibilidades de curadoria. Não se tratou de uma escolha entre críticos e amadores, mas sim na ampliação do debate e certa democratização do tema.

No entanto, se a lógica de rede transformou o conhecimento sobre o assunto moda, a cadeia de criação e produção ainda parece muito tímida ao aproveitar-se desse poder das massas. Novos modelos como o crowdfunding subverteram indústrias poderosas como cinema, games e música. Vale assistir ao TED Talk da Amanda Palmer, cantora norte-americana com um dos projetos mais bem-sucedidos da história do Kickstarter. Amanda conta que perdeu o contrato com sua gravadora porque vendeu “apenas” 25 mil cópias de seu CD. Em contrapartida, exatamente esse número de apoiadores permitiu que ela arrecadasse mais de 1 milhão de dólares para a criação de seu novo trabalho.

Amanda Palmer tem razão ao afirmar que perguntar é uma arte. E precisamos lembrar que também pode ser uma grande oportunidade de novos negócios, uma ótima notícia para um setor que enfrenta tantas crises. Se pararmos pra pensar no uso do crowdfunding na moda, é a mesma lógica que já existe na engrenagem das relação com os varejistas: o estilista faz um show room onde recolhe os pedidos de seus revendedores, e só então as peças são confeccionadas. A diferença é que com a lógica de rede esse poder de influência passa para a mão do consumidor final. Ao incorporar a lógica do crowfunding o próprio consumidor tem o poder de decidir o que vai ser “tendência”.

Além disso, estilistas também podem se dedicar a projetos paralelos e até mais conceituais, direcionados a um público de menor escala e que esteja disposto a consumir propostas mais ousadas. Modelo que tem pouco espaço em grandes conglomerados hoje. Sem falar na possibilidade de tornar a produção mais sustentável e transparente, uma vez que as marcas vão parar de produzir toneladas de roupas que podem encalhar nos estoques e até se dedicar à cadeias produtivas mais justas e éticas. Transparência é um movimento que tem cercado o mundo fashion nos últimos anos, como a Honest By, marca belga que propõe uma cadeia de produção 100% transparente mostrando todos os custos envolvidos nos materiais e mão-de-obra no preço final de cada peça.

Para encerrar essa provocação, tenho muito orgulho e admiração em compartilhar o projeto do Eduardo Biz e a sua marca Alguns Tormentos. O Edu postou seu projeto no Catarse para que a próxima coleção seja vendida antes que seja produzida, ou crowdfunded para os mais íntimos. Grande iniciativa e uma nova voz para uma indústria que clama por ressignificação.

Alguns Tormentos – Catarse from Alguns Tormentos on Vimeo.

 

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Moda
04 de abril de 2013 por Eduardo Biz

A desaceleração do fast fashion e o começo de um novo momento

Quando olhamos para a história da moda no século 20, temos uma divisão bem definida das décadas e seus respectivos estilos. Glamour nos anos 20, masculinização nos 40, revolução sexual nos 60, supermercado de estilos nos 90… Porém, não é fácil identificar uma estética que defina os primeiros anos do século 21.

Foi dos anos 2000 pra cá que a moda começou a se inspirar historicamente nas décadas do século anterior, revisitando-as e criando imagens novas. Pense na grande miscelânea de estéticas vistas nos últimos 13 anos: as mulheres de Sex & The City, Gaga e seus Little Monsters, o movimento emocore, os ecofriends com seus tecidos sustentáveis, o lenço étnico da Balenciaga, high low, androginia, unissex, hipsterismo… Impossível listar todas as referências, e muito menos escolher a mais marcante.

Mas arrisco dizer que um bom resumo dos “anos 00” é o multiculturalismo. A moda nunca foi tão globalizada, e nunca tantos jovens — em tantos lugares diferentes do mundo — se vestiram da mesma maneira. E um dos grandes responsáveis por isso, além da nossa estimada Rede Mundial de Computadores, é o fast fashion.

Desde o final dos anos 1990, o fast fashion vem dominando o planeta com seus preços camaradas, design contemporâneo e qualidade questionável. É uma engrenagem que defende exatamente a grande essência da moda: a efemeridade.

O filósofo Gilles Lipovetsky comenta que, desde os anos 1950, a chamada “estratégia da obsolescência planejada” faz com que as empresas criem pequenas mudanças estilísticas em seus produtos, lançando-os como novos. Embora obras “imortais” ainda possam ser realizadas, os projetos de curta duração são o principal fruto dessa cultura, na qual os objetos tem sua morte programada com antecedência e, muitas vezes, são consumidos antes mesmo de sua posse.

O sociólogo francês Jean Baudrillard defende uma relação mais ativa com os objetos. Segundo ele, em todos os tempos comprou-se, possuiu-se, usufruiu-se, gastou-se e, contudo, não se consumiu. O consumo se dá quando se estabelece uma relação entre o indivíduo e o significado do objeto, ou seja, é o signo do qual o objeto se reveste que o torna consumível.

É aí que nasce o “objeto de desejo”: algo carregado de valores e signos que é oferecido ao homem contemporâneo como capaz de suprir suas carências internas. No entanto, ao perceber que o objeto não pode preencher esse vazio, ele permanece frustrado, gerando uma doentia compulsão para o preenchimento dessa realidade ausente. É um ciclo infinito que jamais se realiza, por não ter limites.

Porém, este cenário já começou a apresentar sinais de desgaste. Observa-se hoje uma tendência comportamental em relação à moda: a vontade por uma maior valorização de tudo que consumimos. Os produtos estão cada vez mais incorporando ao seu design valores intangíveis, deixando de ser apenas objetos para se transformarem em sujeitos que constroem com os consumidores uma relação mais emocional.

Marcas que acreditam neste conceito já estão pipocando mundo afora. Recentemente, a especialista em moda vintage Gill Linton deu uma entrevista ao PSFK em que aborda o enfraquecimento do atual formato da indústria do vestuário. Segundo ela, sua loja Byronesque existe para “instigar a imaginação das pessoas e não deixar que elas se vistam todas da mesma maneira”. Gill acredita que peças vintage são cada vez mais valorizadas, não somente pela autenticidade de seus designs ou pela história que carregam, mas pela durabilidade que oferecem, por terem sido confeccionadas com um primor de qualidade muito superior ao que estamos acostumamos.

Aqui no Brasil, os incríveis tricôs da Helen Rödel nadam forte contra a corrente do fast fashion. Outras tentativas — ainda tímidas — levantam a bandeira do Slow Fashion tupiniquim, como por exemplo a coleção MB Infinito da grife Maria Bonita, com modelagens clássicas que duram muito mais do que apenas uma estação; a estilista Flávia Aranha, que utiliza materiais orgânicos na confecção de peças atemporais; ou Martha Medeiros, conhecida por seu trabalho realizado junto às rendeiras do Rio São Franscisco.

A Folha de São Paulo publicou na semana passada um ótimo depoimento que salienta esse cansaço geral em relação ao efêmero. O texto de Vivan Whiteman critica a grande fábrica de “tendências” que as fashion weeks se tornaram, e como é humanamente impossível acompanhar essa montanha russa de lançamentos. Concomitantemente, em uma série de entrevistas do Style.com sobre o futuro da moda, o estilista Azzedine Alaïa disse que “é inconcebível que um designer tenha uma grande ideia a cada dois meses”.

Tanto é que muitos apelam para a cópia, como mostrou uma polêmica matéria da revista Piauí em 2007. Mesmo grifes consideradas carros-chefe da moda mundial já assumiram ter copiado modelos de outras marcas.

Geoffrey Beene (2004) e Céline (2013)

Aliás, esse debate sobre criação autoral de moda vai esquentar na próxima edição do São Paulo Fashion Week, com a provável inclusão da Lei Rouanet na moda brasileira, dando ao estilista o direito de captar patrocínios para suas coleções. Haverá uma triagem para detectar quais são as grifes que desenvolvem um trabalho de pesquisa criativa e quais são aquelas que não contribuem para a intelectualidade da nossa produção. Provar que uma “obra” é autêntica não será tarefa fácil!

O fast fashion, esperto que é, já está sacando todas essas novas correntes, e começa a pensar em alternativas de engajar sua clientela. Nessa indústria onde criadores copiam criadores, resgatar o “significado” de uma roupa — aquele capaz de gerar desejo no consumidor — será o grande desafio do setor para os próximos anos. Afinal, a busca pela autenticidade é o que deve marcar a imagem desta segunda década do século 21.

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