Carne, ossos e componentes eletrônicos

/

Ao contrário do que se pode pensar, o cenário em que vivem os ciborgues não é um clichê prateado futurístico

por Julia Oliveira

Membros biônicos, placas de aço, super poderes tecnológicos… Ao contrário do que se pode pensar, o cenário em que vivem os ciborgues não é um clichê prateado futurístico. O RoboCop dos cinemas é uma versão hiper exagerada de uma realidade corrente. Inclusive, há um bom tempo que organismos são combinados a objetos artificiais. Próteses, órteses, lentes de contato e aparelhos ortodônticos não são considerados bizarros, mas um dedo com entrada USB ainda pode parecer chocante.

Esse choque, entretanto, está cada vez mais perto de se naturalizar. As máquinas já são parte do nosso cotidiano, integrando-se de forma quase simbiótica aos sentidos humanos. Nesse contexto, a inteligência artificial e os ciborgues são a expressão mais extrema dessa conciliação: humano e artificial são um só, harmônicos, indistintos.

braço cyborg steampunk

A palavra “ciborgue” é proveniente de uma abreviação justaposta das palavras “cybernetic” e “organism”, o que já sugere seu próprio significado: organismo cibernético. Há, porém, discordâncias científicas sobre o que caracterizaria um ciborgue: alguns consideram apenas os seres humanos que tem funções fisiológicas comandadas por dispositivos artificiais, já os pesquisadores Gray, Steven Mentor e Figueroa-Serriera defendem que ciborgue é até mesmo quem teve o funcionamento do organismo alterado por meio de vacina.

Há quem vá ainda mais longe: a Teoria da Mente Estendida sugere que todos — sim, absolutamente todos — os seres humanos seriam naturalmente ciborgues.

Mas em uma coisa há de se convir: o homem contemporâneo tem alto poder de transformação. Ele é de carne, osso e, se assim desejar, de componentes eletrônicos. Tornar-se um ciborgue pode acontecer por necessidade, quando se perde a movimentação dos membros, ou por vontade, que pode ser impulsionada por motivações artísticas ou por filosofias como o transumanismo, que defende o uso da biotecnologia para superar limites humanos.

Para ajudar a digerir a veracidade dessa comunhão, aqui está uma lista de 10 ciborgues contemporâneos, notáveis por suas histórias e pensamentos vanguardistas.

1. Neil Harbisson ouve cores

neil harbisson

Criador da Cyborg Foundation e primeiro ciborgue reconhecido por um governo, o artista Neil Harbisson nasceu sem a habilidade de identificar cores. Ele colocou, então, uma antena que permite que o espectro de cores seja convertido em som, o que aperfeiçoou suas técnicas artísticas. Neil já pintou quadros a partir de sons célebres, como discursos de personalidades, o “Für Elise” de Beethoven e até “Baby” do Justin Bieber.

Arte de Neil Harbisson feita a partir do discurso “I Have A Dream” de Martin Luther King.
Arte de Neil Harbisson feita a partir do discurso “I Have A Dream” de Martin Luther King.

2. Moon Ribas dança ao ritmo de terremotos

Moon Ribas usa um vestido cuja estampa foi criada por Neil Harbisson a partir da música “Moon River”.
Moon Ribas usa um vestido cuja estampa foi criada por Neil Harbisson a partir da música “Moon River”.

Assim como o namorado Neil Harbisson, Moon Ribas é co-fundadora da Cyborg Foundation e incentivadora da arte ciborgue. Ela tem um implante que a torna sensível a abalos sísmicos, que ela usa para guiar a criação suas coreografias de dança. Além disso, Moon também usa brincos-velocímetro que vibram quando percebem a presença de alguém, além de detectar a velocidade exata dela mesma e das pessoas ao seu redor.

3. Rob Spence é cineasta em tempo integral

rob spence eyeborg

O cineasta Rob Spence perdeu um dos olhos e resolveu aproveitar a situação para incrementar seu trabalho, implantando uma câmera na cavidade ocular. Sua câmera-olho foi considerada uma das 50 melhores invenções do ano pela revista Time, além de ter filmado cenas do documentário sobre ciborgues Deus Ex.

4. Jason Barnes perdeu o braço e passou a tocar bateria ainda melhor

jason barnes

Jason Barnes já era baterista antes de perder parte do braço em um acidente de trabalho, o que não o fez desistir da música. Uma prótese primitiva permitiu que ele continuasse tocando seu instrumento de forma similiar a que costuma tocar. Foi a segunda prótese, porém, que impressionou o mundo, dotando o músico de habilidades suprahumanas.

5. Atletas paraolímpicos são super-humanos

super atletas

Muitos dos atletas Paraolímpicos são ciborgues. Não por compaixão eles merecem ser chamados de super herois: suas habilidades inacreditáveis associadas a mecanismos adaptados superam muitos atletas com movimentação plena. O vídeo Meet the Superhumans, feito pelo Channel 4 na época das Paraolimpíadas de 2012, mostra cenas surpreendentes de atletas com cadeiras de rodas adaptadas e próteses nas pernas. Uma nova perspectiva ao sentimento de pena que geralmente ocorre em relação aos deficientes físicos.

6. Juliano Pinto foi ciborgue por um dia na Copa

juliano pinto

Juliano Pinto viveu momentos de ciborgue na abertura da Copa do Mundo de 2014. Vestindo um exoesqueleto desenvolvido por uma equipe de cientistas encabeçada pelo brasileiro Miguel Nicolelis, Juliano foi capaz de dar o primeiro chute da Copa, mesmo sendo completamente paraplégico de tronco e membros inferiores. Apesar de funcionar, o exoesqueleto ainda precisa aperfeiçoar sua praticidade para ser usado no dia a dia.

7. Exoesqueleto para soldados

soldado cyborg

O exoesqueleto HULC (Human Universal Load Carrier) foi desenvolvido pelo professor Homayoon Kazerooni com o objetivo prático de permitir que soldados em batalha consigam carregar pesos de até 90kg a uma velocidade máxima de 16 km/h por longos períodos de tempo. Esse exoesqueleto é diferente do usado por Juliano Pinto porque só é funcional em usuários que movimentem-se sozinhos, uma vez que seu mecanismo é hidráulico.

8. Jerry Jalava tem um pendrive no lugar do dedo

Jerry Jalava pendrive

Depois de perder um dedo, Jerry Jalava aceitou a inesperada sugestão médica de substituir seu indicador por uma prótese que tivesse um drive USB de 2GB. O dispositivo ainda não está implantado diretamente em seu corpo, só faz parte do dedo de silicone. Mas há planos para que, em um futuro próximo, Jerry dê mais concretude ao título de “homem pendrive”.

9. Zoe Quinn fez implantes de chip, ímã e não quer parar por aí

zoe quinn

Zoe Quinn tem um ímã em um dos dedos e um chip em uma das mãos, que faz o que sua programação mandar, como, por exemplo, interagir com games. Até ela mesma desconhece todas as infinitas possibilidades que esse chip pode oferecer, além do impacto que isso possa ter em seu organismo. Foi a própria Zoe que, depois de muita pesquisa, fez seus implantes. E ela não pretende parar suas intervenções por aí. Para ela, esse tipo de modificação corporal é uma forma de expressar desacordo com as convenções do sistema.

10. Tim Cannon tem um monitorador sob a pele

tim cannon

Assim como Zoe Quinn, a tranformação de Tim Cannon em ciborgue se deu por uma intervenção realizada por ele mesmo, através da implantação do aparelho Cicardia 1.0 sob a pele do antebraço. O dispositivo monitora sinais vitais e é criação de Tim, que também desenvolve softwares na Grindhouse Wetware e se idenfica como biohacker.

Versão resumida ×

Próteses, órteses, lentes de contato e aparelhos ortodônticos não são considerados bizarros, mas um dedo com entrada USB ainda pode parecer chocante. Esse choque, entretanto, está cada vez mais perto de se naturalizar. As máquinas já são parte do nosso cotidiano, integrando-se de forma quase simbiótica aos sentidos humanos. Nesse contexto, a inteligência artificial e os ciborgues são a expressão mais extrema dessa conciliação: humano e artificial são um só, harmônicos, indistintos.

O homem contemporâneo tem alto poder de transformação. Ele é de carne, osso e, se assim desejar, de componentes eletrônicos. Ao contrário do que se pode pensar, o cenário em que vivem os ciborgues não é um clichê prateado futurístico.

Leia no texto integral uma lista de ciborgues contemporâneos, notáveis por suas histórias e pensamentos vanguardistas.

Exibir texto integral

Vá Além

TED com Neil Harbisson

Para entender um pouco melhor como funciona a curiosa percepção das cores de Neil Harbisson, ele prório fala sobre como se deu seu processo de transformação em ciborgue, dando vários exemplos de sua correlação específica entre cores e sons, e ainda incentivando as pessoas a se tornarem ciborgues.

A Inteligência Artificial encontra o executivo

Os empreendedores Anthony Goldbloom e Jeremy Howard e os teóricos de negócios Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee são entrevistados a fim de discutir quais são os impactos da inteligência artifical nos cargos executivos. O assunto é polêmico porque a ameaça da primazia humana na administração já é uma realidade.

Humans Need Not Apply

Documentário que conta como as máquinas transformaram as perspectivas no mercado de trabalho. A tecnologia tornou-se concorrente direta do ser humano, primeiro com a substituição do força física pela mecânica, e agora com a assustadora realidade da troca da inteligência humana pela artificial.

Acessórios que dão super poderes

Audição além mar, GPS integrado ao corpo, coordenação motora aguçada e invisibilidade às câmeras: o estigma do “ciborgue-Robocop” não parece tão fora da realidade com estes acessórios que parecem transformar super poderes em habilidades tangíveis.

Comente

Mudando de assunto...

A principal tendência da atualidade: entenda a urgência do Lowsumerism

Lowsumerism

Como frear o consumismo em uma sociedade dominada por indústrias e marcas? As respostas surgem por meio de microtendências que levam a uma macrovisão da vida contemporânea: todo o nosso zeitgeist tem se voltado ao “menos é mais”. O consumidor, cada vez mais consciente, abraçará as alternativas de novos modelos mercadológicos capazes de atender às suas necessidades e vontades de uma maneira menos nociva.

Transição para Era de Aquário: além do viés astrológico

Sabedoria Natural

Estamos em transição para uma nova era, mais afetiva, feminina e orientada pelo sentimento e a intuição. O que os astrólogos chamam de era de Aquário é o mesmo que os economistas chamam de capitalismo consciente. É a era do conhecimento para os filósofos, a era caórdica para os intelectuais e a era digital para os tecnológicos. Humanistas chamam de novo humanismo e varejistas de crise.

Anti-intelectualismo e o diagnóstico do subjetivo

 

Em um cenário de crise generalizada da (des)confiança, passamos a questionar especialistas — nada mais é subjetivo ou complicado demais para que não tenhamos uma opinião certeira e definitiva, capaz de ditar inclusive o que podem pensar as outras pessoas. O anti-intelectualismo é comumente expresso na forma de hostilidade e desconfiança em relação ao universo intelectual, como por exemplo a depreciação da filosofia e o desdém pela arte.