Silêncio em tempos de excesso

No caótico mundo 24/7, a quietude tem sido vista como medida essencial para resgatar o equilíbrio e a criatividade pessoal. Nos últimos anos, o silêncio ganhou um novo status.

Consome-se informação no táxi, no elevador, na mesa do restaurante, nos onipresentes smartphones. Sufocada por notificações, a vida nas grandes cidades desperta uma necessidade cada vez maior de encontrar espaços, rituais e intervenções capazes de trazer a serenidade de volta para o cotidiano.

Um exemplo da busca por esse tipo de refúgio é a série Monochromes do artista David Batchelor, na qual fotografa placas e cartazes em branco encontrados nas ruas.
Um exemplo da busca por esse tipo de refúgio é a série Monochromes do artista David Batchelor, na qual fotografa placas e cartazes em branco encontrados nas ruas.
Outdoors do artista Maciej Ratajski: em cenários tão barulhentos, o espaço em branco torna-se o suco detox da mente.
Outdoors do artista Maciej Ratajski: em cenários tão barulhentos, o espaço em branco torna-se o suco detox da mente.

Essa busca por momentos de serenidade tem como clímax a chamada Mindfulness Revolution, a valorização da meditação na cultura de massa como forma de diminuir os ruídos externos para atingir o equilíbrio interno.

As evidências dessa corrente são inúmeras: do buzz por trás da meditação transcendental ao Headspace, plataforma digital de meditação assistida que conta com mais de um milhão de usuários.

As reinterpretações do cocooning que vem aparecendo na moda e na arquitetura na última década são referências claras à busca pela descompressão e pelo equilíbrio interior. Afinal, o distanciamento tem o poder de tornar as coisas mais nítidas, ou seja, isolar-se do mundo pode ser o melhor recurso para entendê-lo.

Criado pela designer Freyja Sewell, o Sensory Concentration Space é uma espécie de casulo da contemporaneidade. O pequeno espaço cria uma experiência imersiva sem distrações para que o usuário concentre-se no seu próprio corpo. A estrutura pode ser programada com diversos sons, luzes e fragrâncias, podendo assim provocar diferentes sensações.

Journey, o premiado game que leva o jogador a uma sublime jornada de descoberta.
Journey, o premiado game que leva o jogador a uma sublime jornada de descoberta.

O universo dos games também vive um momento semelhante, uma vez que alguns jogos tornaram-se populares por subverter a experiência do gaming. São games que convidam o jogador a experiências mais contemplativas e silenciosas do que a histeria vivida nas arenas de Counter Strike.

Mountain, o game em que o jogador apenas observa o ciclo natural do bioma de uma montanha.
Mountain, o game em que o jogador apenas observa o ciclo natural do bioma de uma montanha.

Tudo isso está ligado culturalmente ao alcance e ao impacto do trabalho de Marina Abramovic. O envolvimento da artista com as performances de longa duração relacionadas ao silêncio tem influenciado grandes ícones da massa, colocando a vovó da performance no universo das celebridades.

O silêncio das marcas

Naturalmente, a quietude passou a influenciar as relações de consumo e algumas marcas adotaram uma postura mais silenciosa e minimalista como forma de diminuir o ruído na vida do consumidor. Trata-se do No Noise Branding, uma postura menos invasiva como expressão de um produto mais puro ou experiência mais simples.

Pure Shoes

Pure shoes, a linha de calçados do arquiteto francês Jean Nouvel para a Ruco Line, é uma das expressões mais didáticas do movimento. As botas Pure reduzem o conceito de um sapato a sua forma mais básica, inclusive através das embalagens translúcidas, como manifestação quintessencial de um calçado. É como se a marca removesse todo o ruído supérfulo para atingir o nível mais puro que um calçado pode oferecer.

Em 2013, a Selfridges, em Londres, também incorporou a mesma mentalidade através do Quiet Shop, projeto no qual as vitrines e algumas prateleiras da loja traziam produtos sem logomarcas. A loja também promoveu meditações assistidas na loja e até criou uma Silence Room.

Selfridges No-Noise

Trata-se de um esforço para oferecer momentos em que as pessoas possam simplesmente contemplar no lugar de ter de realizar ou consumir informações. Em tempos de excesso de ruídos, proporcionar uma experiência contemplativa é a expressão mais sofisticada de luxo.

Páginas em branco, Mindful Revolution, games contemplativos ou No Noise Branding são expressões de um amplo movimento. De maneira geral, paira no ar um sentimento de excesso, saturação e cansaço. Nesse cenário, a quietude e a meditação são ferramentas poderosas de reflexão e resgate do equilíbrio individual. O silêncio se torna inclusive uma forma de transgressão. Afinal, silenciar pode comunicar mais do que falar.

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No caótico mundo 24/7, a quietude tem sido vista como medida essencial para resgatar o equilíbrio e a criatividade pessoal. Nos últimos anos, o silêncio ganhou um novo status. Sufocada por notificações, a vida nas grandes cidades desperta uma necessidade cada vez maior de encontrar espaços, rituais e intervenções capazes de trazer a serenidade de volta para o cotidiano.

Essa busca por momentos de serenidade tem como clímax a chamada Mindfulness Revolution, a valorização da meditação na cultura de massa como forma de diminuir os ruídos externos para atingir o equilíbrio interno. As evidências dessa corrente são inúmeras: do buzz por trás da meditação transcendental ao Headspace, a plataforma digital de meditação assistida que conta com mais de um milhão de usuários.

Naturalmente, a quietude passou a influenciar as relações de consumo e algumas marcas adotaram uma postura mais silenciosa e minimalista como forma de diminuir o ruído na vida do consumidor. Trata-se do No Noise Branding, uma postura menos invasiva como expressão de um produto mais puro ou experiência mais simples.

Em tempos de excesso de ruídos, proporcionar uma experiência contemplativa é a expressão mais sofisticada de luxo. Nesse cenário, a quietude e a meditação são ferramentas poderosas de reflexão e resgate do equilíbrio individual. Silenciar pode comunicar mais do que falar.

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Vá Além

“Eu estava pronta para morrer”, Marina Abramović

Feito às vésperas da estreia de seu trabalho “512 hours”, na Serpentine Gallery, em Londres, um dos melhores dossiês da obra da artista Marina Abramović: o início da carreira nos anos 1970, a vida amorosa permeada de arte, o profundo preparo psicológico e físico para suas performances, cuja popularidade não deve ser confundida com falta de profundidade.

Adeus, FOMO. Olá, JOMO.

O antigo desejo de participar de tudo se prova impossível e agonizante. Por isso a FOMO (Fear Of Missing Out) cede espaço para a JOMO (Joy Of Missing Out). Recuperar a tranquilidade é recuperar a própria vida que havia sido tirada pelo sobrecarregamento de afazeres e cobranças. Às vezes ganha-se mais dizendo "não" a algumas oportunidades que aceitando todas impulsivamente.

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