Tecnologia e gênero: o futuro aponta para a neutralidade

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A abolição do binarismo de gênero influencia a tecnologia, e o desenvolvimento das inteligências artificiais tem ecos nos estudos de gênero

por Giulia Testoni capa Heitor Magno

Em uma sociedade pré-digital, a diferença estética entre os sexos podia até fazer sentido. Porém, hoje vivemos padrões muito mais complexos de comportamento, que resultam em uma existência muito mais fluida, em que o número de pessoas que não se encaixam em um sistema binário de gêneros cresce a cada dia. Transgender, Androgeny, Queer, Neutrois, Transexuals, Pangender: hoje nos deparamos com inúmeras realidades e com a certeza de que vivemos em um mundo muito mais amplo que dois extremos. No entanto, tanta multiplicidade pode resultar, no fim, em nenhuma. A neutralidade de gênero pode ser uma interpretação mais simples das múltiplas facetas que o gênero pode assumir.

O mercado da moda já vem dando, nos últimos anos, sinais desta busca pela multiplicidade e libertação. Raf Simons, por exemplo, trouxe para as passarelas em 2003 o tema do “quarto sexo”, em que corpos andrógenos dificultavam as diferenciações características de gênero.

Outros campos ainda são relativamente inexplorados quanto a questões de gênero. É o caso da tecnologia. A junção entre tecnologia e gênero leva a resultados instigantes em ambas as áreas, quase como uma promessa de um novo mundo, de um novo Jardim do Éden. Pode parecer contraditório, à primeira vista. Afinal, como a tecnologia, um domínio binário por natureza, pode ajudar a revogação dos gêneros binários? É sobre isso que vamos nos debruçar.

O projeto de arte performance Reverso propõe a desconstrução do corpo, como forma de protesto contra o binarismo dos gêneros.

Somos todos humanos

O aperfeiçoamento de inteligências artificiais pode ensinar muito sobre a nossa própria construção psíquica. Inteligências artificiais são programas de computador que simulam e se portam como a mente humana. Isso significa que, para desenvolvê-las, é preciso entender a natureza e funcionamento de cada uma delas separadamente.

Assim como explica o futurista Santiago Andreuzza, da aeroli.to, programas de computador são uma sequência de passos. Para um programa ir para o próximo passo, ele precisa tomar decisões como “sim ou não” ou “esse ou aquele”, trilhando seu caminho sempre a partir de duas opções — nunca mais nem menos que isso. Em muitos casos, a mente humana age da mesma maneira, porque a nossa inteligência também é totalmente orientada para decisões lógicas.

A similaridade entre a mente humana e a artificial é perceptível. Em relação ao gênero, entretanto, o assunto é mais complexo. Atualmente, muitos pesquisadores ainda usam o conceito de gênero quando se fala de inteligências artificiais. Fazer do robô “homem” ou “mulher” torna-o mais familiar aos seres humanos, pois estamos acostumados com a ideia de que há um mindset feminino e outro masculino. Por exemplo, androides com características femininas são associados a funções de cuidado, já os masculinos a funções de inteligência.

Nick Gentry
Nick Gentry

Apesar de a raça humana ser ensinada a agir de acordo com um padrão do que é “ser homem” e “ser mulher”, as mudanças na sociedade apontam que essas normas estão ultrapassadas. Há algumas décadas o psicanalista francês Jacques Lacan já criticava a utilização da noção de gênero.

“Nada no psiquismo permite que o sujeito se situe como macho ou fêmea; é do Outro que o ser humano aprende, peça por peça, o que fazer como homem ou como mulher.”

As inteligências artificiais estariam então mimetizando os estereótipos de comportamentos ditos “femininos” ou “masculinos”.

Ao estudar separadamente a consciência (software) e o corpo (hardware), a percepção destes paradigmas biológicos estigmatizados veio à tona.

E foi partir daí que a tecnologia influenciou a quebra de representações de ideais que não fazem sentido. Afinal, não somos reflexo de um fator pré-determinado biologicamente, mas sim de um mindset construído socialmente, que possui múltiplas possibilidades, camadas e variações.

Somos todos máquinas

Antoine Geiger
Antoine Geiger

Com o domínio da biotecnologia haverá a chance de hackear nossa codificação biológica, e a possibilidade de manipular nossas características: hormônios, implantes de seios, biococks… Até terceirizar nossa reprodução será possível, assim como sugere Benjamin Abbott no artigo “Posthuman Gender: A Non-Binary Future”.

De acordo com as teorias transhumanistas, nossas mentes estarão cada vez mais conectadas a dispositivos tecnológicos, a ponto de se tornarem uma coisa só. Ray Kurzweil, diretor de engenharia do Google e considerado um dos maiores futuristas da atualidade, diz que:

“Nós estamos no caminho para nos tornar cada vez mais não-biológicos, ao ponto em que a parte não-biológica domina e a parte biológica não é mais importante. Na verdade, a parte não-biológica – a parte da máquina – será tão poderosa que poderia modelar completamente e entender a parte biológica. Assim, mesmo que a parte biológica vá embora isso não fará nenhuma diferença.”

Mário João
Mário João

O movimento genderless não representa apenas a abolição de gêneros através de meras abstrações estéticas sem o desejo de construir um sentido: estamos querendo dizer algo.

Quando atingirmos a singularidade, isto é, quando o cérebro puder se conectar à inteligência artificial, o sonho da transcendência do corpo biológico poderá ser alcançado.

Para o gênero e a orientação sexual isso significa uma enorme libertação. A propriedade agênera e moldável das máquinas será emprestada para o ser humano, e os corpos serão simples envelopes da mentalidade, que é o que realmente importa. Os corpos não mais definirão e limitarão nossos lugares sociais no mundo. Talvez o que aconteça é que eles sejam mais representativos de nossa personalidade, uma vez que poderemos forjar nossos atributos físicos. Não existirá insatisfação com o próprio corpo.

A busca por um futuro que ultrapasse a condição humana, em que possamos transcender nossas mentes em algo além da nossa capacidade é uma realidade aparentemente distante. Mas projetar o futuro pode influenciar o presente. Está por vir uma realidade mais compatível com nós mesmos, que não pode ser categorizada, reflexo da cyber era da desmaterialização, em que a mente é o assunto principal.

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Em uma sociedade pré-digital, a diferença estética entre os sexos podia até fazer sentido. Porém, hoje vivemos padrões muito mais complexos de comportamento, que resultam em uma existência muito mais fluida, em que o número de pessoas que não se encaixam em um sistema binário de gêneros cresce a cada dia. Alguns campos, como a moda, já exploram questões de gênero há um tempo. Outros domínios ainda são relativamente inexplorados neste quesito, como a tecnologia. A junção entre tecnologia e gênero leva a resultados instigantes em ambas as áreas, quase como uma promessa de um novo mundo, de um novo Jardim do Éden.

A similaridade entre a mente humana e a artificial é perceptível: ambas são orientadas por decisões lógicas. Em relação ao gênero, entretanto, o assunto é mais complexo. Atualmente, muitos pesquisadores ainda usam o conceito de gênero quando se fala de inteligências artificiais. Fazer do robô “homem” ou “mulher” torna-o mais familiar aos seres humanos, pois estamos acostumados com a ideia de que há um mindset feminino e outro masculino. Por exemplo, androides com características femininas são associados a funções de cuidado, já os masculinos a funções de inteligência.

Apesar de a raça humana ser ensinada a agir de acordo com um padrão do que é “ser homem” e “ser mulher”, as mudanças na sociedade apontam que essas normas estão ultrapassadas. Ao estudar separadamente a consciência (software) e o corpo (hardware), a percepção destes paradigmas biológicos estigmatizados veio à tona. E foi partir daí que a tecnologia influenciou a quebra de representações de ideais que não fazem sentido.

De acordo com as teorias transhumanistas, nossas mentes estarão cada vez mais conectadas a dispositivos tecnológicos, a ponto de se tornarem uma coisa só.
Com o domínio da biotecnologia haverá a chance de hackear nossa codificação biológica, e a possibilidade de manipular nossas características.Quando atingirmos a singularidade, isto é, quando o cérebro puder se conectar à inteligência artificial, o sonho da transcendência do corpo biológico poderá ser alcançado.

Para o gênero e a orientação sexual isso significa uma enorme libertação. A propriedade agênera e moldável das máquinas será emprestada para o ser humano, e os corpos serão simples envelopes da mentalidade, que é o que realmente importa. Os corpos não mais definirão e limitarão nossos lugares sociais no mundo. Talvez o que aconteça é que eles sejam mais representativos de nossa personalidade, uma vez que poderemos forjar nossos atributos físicos. Não existirá insatisfação com o próprio corpo. Está por vir uma realidade mais compatível com nós mesmos, que não pode ser categorizada, reflexo da cyber era da desmaterialização.

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