O papel da mídia na humanização das pessoas trans

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Pessoas trans saem das margens e colocam-se em foco como protagonistas de suas próprias histórias

por Maria Clara Araújo capa Laurent Monnet

Quando eu, mulher trans, aos 16 anos pesquisei “travesti” e “mulher trans” no Google (aconselho que você faça o mesmo), só achei notícias relacionadas a morte, criminalidade, patologização e prostituição. Como nós, enquanto sociedade, condicionamos um grupo a se ver apenas dentro de perspectivas tão cruéis? Este é o ponto que leva muitas de nós a escrever sobre anseios, para nos vermos de outras formas.

A pessoa trans é aquela que não se identifica com o gênero que lhe foi designado no nascimento, entendendo que, em nossa sociedade, existe no pensamento popular um determinismo que liga as genitálias aos gêneros. Mas de que forma a vivência destas pessoas está sendo representada na mídia? Com a ascenção de pessoas trans como Laverne Cox, atriz da série “Orange Is The New Black”, tem acontecido uma corrente contrária às formas como essa população geralmente é mostrada para a grande massa, desta forma tentando humanizar a imagem das pessoas transexuais.

“Hoje estamos em um lugar em que mais e mais pessoas trans querem dar um passo a frente e dizer: “Esta sou eu.””
“Hoje estamos em um lugar em que mais e mais pessoas trans querem dar um passo a frente e dizer: esta sou eu.”

Laverne foi eleita uma das pessoas mais influentes do mundo pela revista Time, e nunca deixou de frisar a importância de pessoas trans serem donas de suas próprias narrativas, representando a si mesmas.

E, quando se fala em representar, é sobre existir, de fato, em uma sociedade em que 90% das mulheres trans e travestis estão na prostituição como um lugar condicionado.

A modelo Lea T, ao ser entrevistada pela primeira vez em um programa brasileiro, alertou sobre o medo que teve ao se assumir mulher trans. Um medo compartilhado com outras, pois uma grande parte das mulheres trans, após serem colocadas para fora de casa pela falta de apoio, acabam encontrando “estabilidade” apenas na prostituição.

Enquanto escritora, fiquei muito feliz em saber que, pela primeira vez, há uma mulher trans escrevendo uma série para a TV. Our Lady Jay criou “Transparent”, série que vem ganhando prêmios por sua abordagem humanizada sobre as vivências trans. Ela trata de uma realidade recorrente: uma transição em uma fase avançada da vida. Esse tipo de situação ainda acontece com frequência na vida real devido à escassez de informação sobre transexualidade, dentro de um viés informativo e pedágogico. Embora a série seja interpretada por um homem não trans, há lucidez não só na forma como ela foi feita, mas também ao ver o ator principal, Jeffrey Tambor, quando premiado, lembrando a população de quem ele está representando e agradecendo por compartilharmos nossas experiências.

Jeffrey Tambor intepretando Maura Pfefferman em “Transparent”.
Jeffrey Tambor intepretando Maura Pfefferman em “Transparent”.

Sobre este aspecto da premiação, é importante pontuar a consagração instantânea de homens não trans quando representam mulheres trans ou travestis no cinema. Jared Leto em “Clube Compras Dallas”, Rodrigo Santoro em “Carandiru”, Lee Pace em “Um Amor na Trincheira” e o próprio Jeffrey Tambor em “Transparent”. Parece que existe uma supervalorização do trabalho do ator, porque o ato de se travestir, ou o processo de desumanização transmitido por essa caracterização, é lido pela grande crítica como algo “corajoso”. É o topo da pirâmide social abdicando de seus privilégios, ao menos por alguns dias de gravação, para ocupar o lugar de quem está nas esquinas prostituindo-se.

Como mudar esta situação? Primeiramente, percebendo a posição de abjeção que a maioria das pessoas trans vivenciam.

Pense: quantas pessoas trans trabalham, estudam, ou se relacionam, na amizade ou afetivamente, com você?

Embora agora existam mulheres trans na indústria televisiva tendo o direito de falar, existem disparidades entre estas representantes e as pessoas trans que não estão na mídia. Caitlyn Jenner, por exemplo, ressalta que sua situação de vida quando comparada à de suas iguais é contrastante:

“Se você quiser me dar apelidos, fazer piadas, duvidar das minhas intenções, vá em frente. Porque eu consigo aguentar. Mas os milhares de jovens que ainda estão definindo quem são, eles não deviam ter que aguentar isso.”

A cada mulher trans como Jamie Clayton, estrela da série “Sense 8”, do Netflix, atuando em uma série em que se vê a transexualidade não de uma maneira romantizada, mas mostrando as penalizações vivenciadas, acumula-se uma vitória bastante signicativa. Afinal ainda há muita luta pela frente, não só por inclusão, mas também pelo direito à voz dentro de espaços que estruturalmente nos são negados.

 “A real violência, a violência que eu percebi que é imperdoável, é a violência que fazemos contra nós mesmos.”
“A real violência, a violência que eu percebi que é imperdoável, é a violência que fazemos contra nós mesmos.”

Quando se luta pelo reconhecimento da humanidade de alguém, é trazida, automaticamente, uma maior perspectiva de vida para aquela pessoa. Isso parece urgente, uma vez que a expectativa de vida de mulheres trans e travestis em contexto brasileiro é de 30-33 anos, segundo a Antra, maior associação de travestis e mulheres trans do Brasil. Uma vez que essas pessoas não estão em nossos meios sociais, acabam lidando com o processo de “coisificação”. Isso tira a condição de sujeito e coloca em posições precárias de “sub-gente”.

Ligar a TV e assistir a uma mulher trans interpretando uma personagem médica, professora, ou ver um menino trans sendo aprovado em uma universidade, nos tira do escuro da negligência e assegura os mesmos direitos das pessoas não trans em nossa sociedade. Só assim pode-se garantir cidadania, humanidade e representatividade.

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A pessoa trans é aquela que não se identifica com o gênero que lhe foi designado no nascimento, entendendo que, em nossa sociedade, existe no pensamento popular um determinismo que liga as genitálias aos gêneros. Mas de que forma a vivência destas pessoas está sendo representada na mídia?

Com a ascenção de pessoas trans na mídia, tem acontecido uma corrente contrária às formas como essa população geralmente é mostrada para a grande massa, dessa forma tentando humanizar a imagem das pessoas transexuais. Em uma sociedade em que 90% das mulheres trans e travestis estão na prostituição como um lugar condicionado, é muito significativo que as pessoas trans sejam donas de suas próprias narrativas, que representem a si mesmas em séries, novelas e filmes.

Parece que existe uma supervalorização do trabalho do ator, porque o ato de se travestir de uma de nós, ou o processo de desumanização transmitido por essa caracterização, é lido pela grande crítica como algo “corajoso”. É o topo da pirâmide social abdicando de seus privilégios, ao menos por alguns dias de gravação, para ocupar o lugar de quem está nas esquinas prostituindo-se.

Como mudar esta situação? Primeiramente, percebendo a posição de abjeção que a maioria das pessoas trans vivenciam. Pense: quantas pessoas trans trabalham, estudam, ou se relacionam na amizade ou afetivamente, com você? Quando se luta pelo reconhecimento da humanidade de alguém, é trazida, automaticamente, uma maior perspectiva de vida para aquela pessoa. Isso parece urgente, uma vez que a expectativa de vida de mulheres trans e travestis em contexto brasileiro é de 30-33 anos, segundo a Antra, maior associação de travestis e mulheres trans do Brasil. Uma vez que essas pessoas não estão em nossos meios sociais, acabam lidando com o processo de “coisificação”. Isso tira a condição de sujeito e coloca em posições precárias de “sub-gente”. Ligar a TV e assistir a uma mulher trans interpretando uma personagem médica, professora ou ver um menino trans sendo aprovado em uma universidade, nos tira do escuro da negligência e assegura os mesmos direitos das pessoas não trans em nossa sociedade. Só assim pode-se garantir cidadania, humanidade e representatividade.

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