Teatro imersivo e a renovação da experiência cênica

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Peças contemporâneas fazem o espectador se inserir tão profundamente na ficção que pouco resta da experiência convencional do teatro

por Eduardo Biz

Ouvir uma história ser contada ao vivo, de corpo presente, sempre foi o encanto oferecido pelas artes cênicas. Há mais de 3 mil anos o teatro vem evoluindo como expressão artística, tendo como base a seguinte configuração mínima: atores, um local e uma plateia. A receita se mantém a mesma desde sempre, mas recentemente algumas obras inovadoras tem sido responsáveis por reacender o gosto do público por este tipo de entretenimento.

Há cerca de três anos, o interesse das pessoas pelo teatro ganhou novos ângulos graças ao chamado “teatro imersivo”. Tratam-se de peças que se confundem com instalações performáticas, fazendo o espectador se inserir tão profundamente na ficção que pouco resta da experiência convencional de uma peça. Mais do que uma interação entre elenco e plateia, o teatro imersivo propõe narrativas em que ambos se confundem, diluindo as fronteiras entre realidade e fantasia.

Sleep No More

Desde 2011, a peça Sleep No More vem atraindo multidões em Nova York. A história — livremente inspirada no clássico Macbeth, de Shakespeare — se passa no fictício Hotel McKittrick, onde os convidados percorrem os quartos e corredores junto com os atores, sem conseguirem distinguir exatamente quem é plateia e quem é elenco. Encorajados a explorar o cenário enquanto a narrativa se desenrola, o objetivo é desvendar o mistério de um assassinato. Pausas para drinks são bem-vindas no bar, que também serve como um dos cenários da peça.

Recentemente, em 2013, passou a funcionar no último andar do hotel o restaurante The Heath, que serve um menu britânico ambientado em um filme noir. Embora relacionado à peça, o restaurante funciona separadamente, como complemento de um novo tipo de vida noturna que se manifesta mundo afora. De fato, há uma verdadeira epidemia de teatro imersivo rolando. No Brasil, Zé Celso e o Teatro Oficina são vanguardistas no assunto desde os anos 1960, com peças de caráter contestador que poderiam durar até dias.

É uma tendência com forte impacto na indústria do entretenimento que surge como resposta à cultura digital. Quando muito do conteúdo cultural contemporâneo é oferecido online, a vontade de desconectar-se alia-se à possibilidade de viver uma experiência imersiva: eis o trunfo do teatro atual.

Veja abaixo outros exemplos de peças que estão revendo os conceitos tradicionais do teatro.

1. Then She Fell

Then She Fell

“Then She Fell” acontece em um hospital abandonado no Brooklyn, onde enfermeiras sugerem que todos ali são pacientes de um hospício. O universo introspectivo e fantástico é inspirado na relação entre Lewis Carroll e Alice Lidell, repleto de devaneios abertos por chaves e poções. O espetáculo é inteiramente coreografado e encenado para, no máximo, quinze pessoas, garantindo a intensidade das experiências individuais. Ao final, o grupo vai se reduzindo até chegar em um momento a sós com Alice.

2. Queen Of The Night

Queen Of The Night

Os mesmos criadores de “Sleep No More” fizeram uma versão interativa de "A Flauta Mágica", de Mozart, chamada “Queen of The Night”. A postura contida do espectador é desencorajada para que ceda lugar a um comportamento ativo, que interfira na trama. Comida, bebida e dança são alguns dos recursos usados para mesclar real e virtual em um ambiente festivo que trata os convidados como realeza.

3. Silo Theater

Definitivamente pode-se dizer que as peças da companhia neozelandesa Silo Theatre são ovacionadas ao redor do mundo por sua ousadia. O “Blind Date Project”, por exemplo, não é ensaiado e nunca repete apresentações. Isso porque a cada dia a atriz Bojana Novakovic, que interpreta Anna, recebe um pretendente surpresa diferente sempre no mesmo karaokê. O diretor interage em tempo real, enviando via telefone instruções para os atores. Público, atores e diretor não conseguem controlar os desdobramentos do percurso dramático.

4. Cia Coexistir

Cia Coexistir

“A Jornada de Orfeu”, da Cia Coexistir de Teatro, foi, segundo sua diretora, tecida a fim de colocar o público em contato com o medo. Por isso a peça ganhou outra dimensão quando foi encenada no cemitério do Redentor, em São Paulo. Um cemitério real é o cenário perfeito para representar o Hades — o reino dos mortos na mitologia grega — enquanto se acompanha o resgate de Eurídice por seu amado Orfeu. É possível sentir-se como o protagonista em sua arriscada aventura: exposto à dinâmica da inevitabilidade e tomado por um clima pesado.

Em proposta semelhante, a Companhia EmFoco também investiu no cemitério para construir a atmosfera de horror na peça “Além dos cravos”.

5. Outbreak Manila

Outbreak Manila

Para quem tem disposição física e gosta de emoções fortes, Outbreak Manila é um conjunto de três gincanas com a temática de ataques zumbi. Uma delas — a principal, chamada Outbreak Manila — obriga uma corrida de 5km na fuga de zumbis; Outbreak Missions simula desafios em um mundo pós-apocalíptico; e Outbreak Assault é uma expriência vivida em uma construção infestada de zumbis.

6. Stop Hitting Yourself

Stop Hitting Yourself

À primeira vista o espetáculo “Stop Hitting Yourself”, da companhia Rude Merchs, parece ser construído em moldes teatrais ordinários: a plateia sentada, os atores no palco. Mas, para legitimar a crítica da trama e demonstrar o que o dinheiro pode ser capaz de fazer, algumas pessoas do público são coagidas a subirem ao palco e participarem da performance latindo como um cão, mostrando o umbigo ou se despindo de suas roupas. Tudo para coroar a bizarrice carregada de caricaturas, brilho e ostentação que se instaura no cenário.

7. The Speakeasy

The Speakeasy

“The Speakeasy” é uma produção do Boxcar Theater que reproduz um bar clandestino da década de 1920. O acesso se dá através de uma relojoaria, e lá dentro há um cabaré e um cassino. A casa tem regras para seus convidados, como só falar com os atores se eles fizerem a primeira interação. Também é desejável que se vá vestido com roupas de época, a fim de se perder entre os 35 atores que compõem o elenco. Quem assiste também é convidado a permanecer no ambiente depois da apresentação para desfrutar das bebidas do bar.

O musical “Natasha, Pierre and the Great Comet of 1812” também merece menção por apresentar a mesma configuração.

8. Here Lies Love

Here Lies Love

O musical “Here Lies Love” conta a história de Imelda Marcos, grande figura política feminina das Filipinas. Em um ambiente parecido com o de uma boate os convidados são encorajados a participarem da atmosfera altamente dançante e performática. Drinks também eram vendidos para reforçar a vivência, que dispunha de trilha sonora composta por David Byrne em parceria com Fatboy Slim.

9. Microteatro

Microteatro Madrid

O Microteatro surgiu em Madri, ocupando um prostíbulo como lugar improvisado, para não deixar o teatro morrer. Mas o que era solução paliativa acabou dando tão certo que resultou na criação de um formato inovador: micropeças de quinze minutos costuradas por um mesmo tema e encenadas ao mesmo tempo em espaços de até 15m². As opções simultâneas, que ficam por conta e risco do espectador, já fazem sucesso também no Rio de Janeiro e foram acolhidas pelo Castelinho, um casarão de madeira antigo e sombrio que dá uma identidade diferente para a versão brasileira do projeto.

10. Bom Retiro 958 Metros

Bom Retiro

Em uma caminhada noturna de 958 metros pelo bairro do Bom Retiro, em São Paulo, a plateia vagueava por ruas e locações fantasmagóricas, contraditórias ao movimentado varejo de roupas que ocorre durante o dia. De 2012 a 2013, o Teatro da Vertigem ocupou as ruas da região com personagens marginalizados, guiando o público até um teatro em ruínas, onde a apresentação se concluía.

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Há mais de 3 mil anos o teatro vem evoluindo como expressão artística. Recentemente algumas obras inovadoras tem sido responsáveis por reacender o gosto do público por este tipo de entretenimento. O interesse das pessoas pelo teatro ganhou novos ângulos graças ao chamado “teatro imersivo”. Tratam-se de peças que se confundem com instalações performáticas, fazendo o espectador se inserir tão profundamente na ficção que pouco resta da experiência convencional de uma peça. Mais do que uma interação entre elenco e plateia, o teatro imersivo propõe narrativas em que ambos se confundem, diluindo as fronteiras entre realidade e fantasia.

No Brasil, Zé Celso e o Teatro Oficina são vanguardistas no assunto desde os anos 1960, com peças de caráter contestador que poderiam durar até dias. Desde 2011, a peça Sleep No More vem atraindo multidões em Nova York com uma história que se passa no fictício Hotel McKittrick, onde os convidados percorrem os quartos e corredores junto com os atores, sem conseguirem distinguir exatamente quem é plateia e quem é elenco.

Há uma verdadeira epidemia de teatro imersivo rolando. É uma tendência com forte impacto na indústria do entretenimento que surge como resposta à cultura digital. Quando muito do conteúdo cultural contemporâneo é oferecido online, a vontade de desconectar-se alia-se à possibilidade de viver uma experiência imersiva: eis o trunfo do teatro atual.

Leia no texto integral uma lista de exemplos de peças que estão revendo os conceitos tradicionais do teatro.

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Uma campanha da marca de água Perrier, por exemplo, contou com uma espécie de filme interativo em que o espectador deve procurar uma garrafa secreta de Perrier, passando por sessenta personagens entre os mais variados cenários e incontáveis possibilidades de roteiro. Quase um jogo. Achando esse objeto, seria possível concorrer a entradas para festas reais ao redor do mundo, como o carnaval carioca ou a virada do ano em Sydney.

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