TRANScenGENDER – um ensaio sobre a verdade

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A REPORT ON TRUTH

por Bruna Baffa capa Victória Carvalho

1. D U A L I S M O

verde

1.1 TERRENO SÓLIDO: natureza e normatividade

O tempo em que a natureza iria salvar todos nós ou the death of bio-order

Desde o início dos tempos o homem vive sob a força invisível da natureza. Verdade e naturalidade se fundem como um romance nos trópicos, calmo, idealizado e embalado por uma piña colada ao som de Coltrane, uma rede de frente pra praia enquanto olhamos para o alinhamento das estrelas e suspiramos aliviados porque nada nunca em hipótese alguma tirará de nós o céu que nos protege. A natureza — ou o natural — como sinônimo de perfeição é uma construção histórica que nos forneceu os tijolos ideais para desenharmos a tão sonhada yellow brick road. Afinal, let’s face it: a facilidade de se poder pavimentar ética, moral e bons costumes sobre um caminho brilhantemente enviado para nós como verdade absoluta aquece o coração.

O conceito de natureza divina como balizador de nossas vidas existe desde o início dos tempos, quando a mulher mais perfeita vem à Terra a partir de uma costela em um certo paraíso, e desde então a ordem das coisas é a ordem das coisas, e fim. A verdade suprema e inquestionável serviu de base para definirmos humanidade e humano por milhares de anos, e esta anunciação faz parte, até hoje, de nossas rodas de discussões. Acontece que, ao mesmo tempo em que fincamos nossa bandeira da salvação nesse terreno sólido e seguro, um canto da sereia sempre insistiu em sussurrar: is this real life?

A natureza sempre foi nossa promessa de salvação, mas quando nos vemos rodeados por braços biônicos, chips implantados, inseminação artificial, pílulas de controle de disfunções e provetas, hormônios encomendados no Walmart, peitos de silicone líquido evoluídos para peitos de silicone gel, jogos de videogame comandados por leitura de ondas cerebrais, sensores de movimento ativados por smartphones ou robôs que cantam em espanhol e questionam o sentido da vida, será que ainda conseguimos sustentar a terra prometida? A naturalidade é uma utopia, a biologia não é mais um destino seguro e a verdade é que toda verdade é inventada, no matter what. O ideal é quentinho, mas a realidade é maior.

1.2 VERDADE COMO COMPARAÇÃO

The need to belong: gênero performado como um modo de acreditar

Feche os olhos e imagine um homem. Agora uma mulher. O binário foi o modelo institucionalizado em nossa cultura para definir gênero e, sob a égide da religião, das instituições e das relações sociais tradicionais, validamos e reforçamos ao longo do tempo essa construção. O terreno sólido do natural nos ensinou a pensar de forma polarizada, onde a oposição radical entre dois lados definia identidade. O certo e o errado, o natural e o artificial, o sim e o não. Eu sou o que sou porque não sou o outro. Simples, fácil e lógico. E, mais importante: seguro.

A necessidade de definirmos lados opostos e claramente delineados foi construída em cima do medo da perda da identidade. Em um mundo onde a natureza dita as regras e o divino é a verdade anunciada, é preciso se encaixar para ser. O pertencimento é a segurança necessária para seguir adiante e a normatividade é o abraço acolhedor dos deuses.

O gênero binário é reforçado — especialmente na cultura ocidental — como um dos principais bastiões desta ordem, a inquestionável certeza da natureza das coisas. Is it a boy or a girl? Está dada a gênesis, o resto é continuidade. E assim, a partir dessa construção de sexo e gênero, aprendemos a representar como nos melhores filmes de Hollywood: o rapaz, a moça e a história colorida com final feliz.

2. M U L T I P L I C I D A D E

boias

2.1 TERRENO FLUIDO: pluralidade

O desejo de expansão: blurring the lines of a boring conformity

Somos filhos das esteiras de produção em massa, da globalização e do raciocínio linear, onde o futuro é um cinematográfico mergulho numa garrafa de refrigerante borbulhante em plena Times Square, right through the very heart of it. Nesse sonho de consumo de gigantes, tudo o que não obedece ao padrão ou é descartável ou precisa ser ajustado. Dualismo e exclusão são partes fundamentais da lógica industrial, essa é a receita do verdadeiro império dos sonhos.

Mas o comercial de 45 segundos precisa de mais que o mesmo sundae, a mesma blusa e os mesmos rostos na multidão para merecer um lugar ao sol. Quando o padrão vira commodity, a norma perde status e a diferenciação passa a ser o anel de brilhantes para o casamento perfeito. O questionamento da natureza como substância trouxe à tona a dinamicidade e a fluidez do sujeito e das coisas ao seu redor, abrindo espaço para o homem se ver como multi. A esteira da linha de montagem andou e a Madonna pintou o cabelo pelo menos oito vezes só na década de 90. Nesse meio tempo, a internet surge na forma de três arcanjos tocando cornetas em neon, um grunge, um hippie e uma patricinha que lê Nietzsche e joga frescobol — não necessariamente nessa ordem — abrindo as portas para um novo tipo de era: a horizontalização e a redistribuição de canais de comunicação aparecem como armas de empoderamento individual e fortes articuladores da celebração das diferenças, as fronteiras culturais se tornam mais fluidas e as categorias identitárias tradicionais não dão mais conta de tudo que existe nesse todo.

Passamos a nos orientar por uma nova constelação: um espírito transcultural, aberto, inquieto, autêntico e plural, e esses novos valores desafiam a normatividade e a lógica dualista que por tanto tempo comandaram o ritmo do baile. Os significados absolutos ganham contornos ambivalentes e o ‘e' passa a seduzir mais que o ‘ou'.

Num novo eixo de rotação das coisas, as normas, antes tidas como balizadoras, passam a ser vistas como também castradoras, e os termos ‘definição’, ‘construção’ e ‘limitação’ começam a ser enxergados como primos mais próximos que o desejado por alguns. O terreno das possibilidades passa a ser o paraíso buscado: passamos de muitos para múltiplos e vemos emergir uma aceitação das diferenças e uma mainstreamização do plural.

2.2 VERDADE COMO POSSIBILIDADE

The rising of a wider spectrum: gênero como possibilidade de escolhas

Angela nasceu com um órgão reprodutor masculino, mas nunca se reconheceu como homem. Mudou de sexo aos 22 anos e hoje namora Lucia que, designada mulher no momento de seu nascimento, se identifica como mulher e sente atração sexual também por mulheres. João é um homem sensível que usa calças apertadas, camisas coloridas, gel no cabelo, faz as unhas e é casado com Ana Maria, que prefere falar em fluidez de gênero do que se definir como mulher ou homem. Alice sempre saiu com homens e mulheres e há dois anos namora com Aman, que faz performances drag todas as noites em um cabaré em Hell’s Kitchen. Rufem os tambores: a tentativa de encaixe é, hoje, um tiro à queima-roupa na sanidade. Se antes sexo biológico, identidade e expressão de gênero se limitavam a definições claras — ou homem ou mulher ou feminino ou masculino ou hetero ou homossexual — hoje abrimos espaço para navegar entre pólos antes opostos e discutir o que está além dos nossos narizes. In-between is actually somewhere.

Nossa identidade é efeito de nossa performance, e não a causa. Ela é fluida e não tem absolutamente nada a ver com essência. Simplificando: gênero e identidade são o que você faz, e não quem você é de forma universal. Sexo biológico são as características físicas com as quais você nasce (sim, o sexo atribuído a você no nascimento ainda obedece ao binário homem-mulher). Identidade de gênero é como você se sente e se enxerga internamente, quem você sabe ser independentemente do gênero ao qual você foi designado no nascimento, ou simplesmente uma forma de classificar personalidade. Expressão de gênero é como você expressa externamente o gênero que você assume. E sexualidade, o desejo que você sente em relação a outra pessoa (ou não), é uma coisa completamente diferente que não tem absolutamente nada a ver com todos os itens anteriores. Confuso? Don’t be a fool, just be cool: ao invés de tentar encontrar um atributo fixo de um indivíduo, o gênero deve ser visto como uma variável fluida, um campo de ambivalência que flutua e muda em diferentes contextos, tempos e situações. A complexidade dos termos e definições, como você pode perceber, torna impossível negarmos a necessidade de uma nova ordem das coisas. ‘Gender is always a failure’ — podem começar a imprimir as camisetas.

Com o desejo de expansão ditando um novo modelo aspiracional, o binário agoniza. Não queremos mais ser um e sim muitos, valorizamos uma diferenciação individual e um espaço para simplesmente sermos o que quisermos. Esse mindset flexível e mais aberto – que, vamos combinar, nem é de hoje, já que a diversidade de gênero não-binária já existe no mundo há muitos e muitos anos e já foi documentada por inúmeros historiadores e antropólogos e fashion designers nas regiões mais diversas do globo – promove um shift cultural e abre espaço para um novo conceito de significado de gênero e para a criação de novas narrativas mais conectadas com o que é, de fato, real, e não uma normatividade ideal. Começamos a enxergar um espectro mais amplo e a desafiar a ótica polarizada de masculino e feminino. A necessidade de pertencimento a uma das duas caixas H/M já conhecidas dá lugar à necessidade de se construir outras, infinitas. Um espírito expansivo e mais livre entra em confronto direto com o medo do desconhecido e começa a desafiá-lo. Nessa nova era das possibilidades, vamos do gênero binário para o gênero plural e ambivalente, e o gênero como escolha se transforma no gênero como possibilidade de escolher.

Just be, honey.

3. M U L T I T U D E

multitude

3.1 TERRENO CÓSMICO: transformação

L’éternel devenir: a pluralidade exponencial e o espiral do ser

Convidando duas referências importantes para esse chá das cinco: Simone de Beauvoir disse em momento célebre “não se nasce mulher, torna-se”. Judith Butler completou, anos mais tarde, “chegamos a nos tornar algo? Ou vivemos um mode of becoming sem fim?”. Construção eterna ou never ending development ou infinito, whatever you prefer. O barco que pegamos na era das possibilidades nos traz uma certeza de destino: a contínua navegação. Ser é estar aberto a um futuro que desconhecemos.

No caminho do dualismo para a multiplicidade, abrimos nossos significados culturais para um espírito pós-modernista e pós-estruturalista, onde a ambivalência bota a mesa de jantar para dez, with romance. Na nossa ânsia de definição e pertencimento, fomos do fechado para o aberto, da normatividade para a possibilidade, tudo em busca do tão sonhado espaço para ser o que se quiser ser e para ser diferente e singular. Ser dois OU ser vários ainda dialoga dentro da mesma lógica, a lógica do ser. Pluri-normativizar não é superar as normas, é simplesmente pluri-normativizar. É melhor, é mais confortável, é mais generoso, mas ainda é. A verdade é que sonhamos sempre muito além do que sequer sonhamos saber e, no espiral do ser, passamos a nos perguntar: seria o futuro a continuação ou o rompimento com o passado? Superar é transcender.

A pluralidade exponencial é um filme do Tarantino com dois carros dirigidos por uma loira transexual de unhas vermelhas e uma japonesa fatal de roupa de couro branca a 200 km/h na direção do Grand Canyon e todos nós sabemos: ninguém vai frear. No fundo, não importa mais o pouso. A imortalidade é a duração do salto.

3.2 VERDADE COMO CONEXÃO

Dancing with the stars: gênero como um terreno de liberdade

Dualismo é o céu e o inferno.
Multiplicidade é um vulcão em erupção.
Multitude é o Big Bang.

Como fenômeno que está sendo produzido e reproduzido o tempo todo, o gênero sempre será relativo, cultural e performático. No gênero binário somos um de dois. No gênero plural, somos um de muitos. Mas, se a pluralidade exponencial e o espiral do ser nos trazem a transformação infinita, transcender é se deixar flutuar do ser para o estar sendo.

Com essa abertura de prisma, um ponto de ouro: multitude não é apagamento das diferenças e sim desconstrução do julgamento do outro. É não-estranhamento. Menos nãos e mais sins. Aceitação torna-se, portanto, palavra de ordem nesse novo caminho e ganha contornos mais generosos que os tradicionais: aceitação mais como ação e menos como passividade. Toda jornada é construção e cada marco, por mais fluido que seja, requer reconhecimento – simplesmente porque, por estar sendo, já é. Somos, enfim, tudo o que estamos sendo. Rompemos as amarras sociais para exercer nosso potencial máximo nessa jornada e, se o presente é simplesmente abraçar o acaso, o gênero se torna, em sua forma mais brilhante, um verdadeiro espaço de liberdade.

O átomo do gender blend é a desnaturalização do divino, o surgimento do super-humano a partir da conexão com a verdade interior e o mergulho no infinito.
É ser arremessado para o espaço quântico, em todas as direções.
É a não-oposição não pela falta, mas pela riqueza e portanto insignificância do excesso.
É a identificação pela não-identificação, a resposta pela não-resposta.
É menos encaixe e mais aceitação, menos transgressão e mais relaxamento, menos tensão e mais gozo, menos caixas e mais universo.
É a poeira cósmica da explosão das diferenças que, ao invés de apagá-las e torna-las pasteurizadas, as celebra no momento em que elas são mais reais e mais verdadeiras.
É um espaço coletivo para diversidade e criatividade.
É abundância no lugar da escassez e amplificação no lugar do nivelamento.
É a beleza ofuscante da multitude de expressões.
É self-truth.
É gender-hacking.
É verdade no lugar de naturalidade.
É a transcendência como livre flutuação no nosso próprio universo.
É convidar o divino para brincar.
É se tornar seu próprio Deus.

No gênero situacional, somos um quando estamos em nós.

4. R I S I N G S T A R

rising star

4.1 CONSUMPTION

Diversity driving consumption: além das tradicionais definições de identidade

A Amazon ganha dois Globos de Ouro com sua série Transparent. Caitlyn Jenner é a conta que chega mais rápido a um milhão de seguidores na história do Twitter. A loja de departamentos Selfriges lança — com sucesso absoluto — a Agender, pop-up que sugere uma ‘genderless shopping experience’. O Facebook expande sua tradicional escolha binária de gênero para 58 opções em 2014 e, um ano mais tarde, cria um botão customizável onde cada pessoa pode definir seu gênero como preferir. A campanha da Barneys de 2014 traz 17 modelos transgêneros, a capa da TIME com a Laverne Cox é uma das mais faladas do ano e as passarelas do NYFW nunca trouxeram tanta diversidade e não-conformidade de gênero como em 2015. Not enough? Quase 700.000 americanos são transgêneros, mais do que a população inteira de Boston.

Historicamente, gênero sempre foi um dos mais fortes definidores de identidade, com uma demarcação simples e binária, pautada (erroneamente) em justificativas biológicas. Mas à medida que a mídia passa a abraçar o questionamento do que é, de fato, identidade, apropriação e, principalmente, o que é ser você mesmo, os parâmetros antigos não sustentam mais tudo que está na mesa. Em estudos demográficos de grupos mais jovens e especialmente em centros urbanos, esses significantes tradicionais vêm mudando radicalmente. Cada vez mais vemos emergir um desejo em consumidores por serem reconhecidos fora dos paradigmas tradicionais – há um shift crescente para além das conhecidas antigas definições e marcos de identidade e uma noção mainstream de gênero passa a dar lugar a percepções de identidade muito mais pessoais e singulares.

Diversity is driving consumption 100 mph e a segmentação tradicional do varejo, que sempre partiu da predeterminação do que é homem e mulher, precisa correr para pegar esse trem. O marketing sempre partiu da segurança de definições polarizadas para escolher lados e definir caminhos e propostas e a tradicional segmentação de moda sempre foi feita para homens ou mulheres. O mundo sempre foi assim. Mas o mundo não é mais o mundo que era. Hoje, empresas e segmentos enxergam novos perfis e a lógica da renovação e do diferente é a vitrine que faz brilhar os olhos do novo consumidor. A cultura pop dita o ritmo e acelera a máquina, velhos estereótipos de identidade caem por terra sem fazer barulho e diversidade e beleza passam a estar mais do que conectadas: os dois conceitos hoje são interdependentes e batizados por outro termo cada vez mais em voga: verdade – não aquela antiga, naturalizada e ditada pelo supremo, mas a verdade individual de cada um. O consumidor de hoje embaralha os códigos conhecidos e quer poder falar de gênero com suas próprias palavras. A virada é clara: é hora das marcas terem coragem de expandir suas definições do que significa ser homem ou mulher no século 21. Welcome to the in-between.

O mundo está acordando para novas possibilidades de gênero, mas mais do que isso, para novas possibilidades de escolhas ou de simplesmente não se precisar escolher. Ideias e gênero passam a ser cada vez mais desconstruídos e o futuro que se desenha nesse horizonte – o futuro que as marcas precisam começar a abraçar desde já – é aberto, generoso, múltiplo, gender creative e não se divide, definitivemente, entre as cores azul ou rosa.

TRANScenGENDER drives

playfulness
transcendence
eternal becoming
fluidity
non-otherness
truth as connection
freedom
open creativity
exponential plurality
fearless impulse
self-truth
multitudinal orientation
univerself

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