Músicas dos Brasis: o cotidiano em outros sotaques

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Um bom passo para conhecer Brasis que influenciam e tecem nosso cotidiano é escutando: sotaques, músicas e histórias

por Mayra Fonseca capa Coutto Orquestra / Melissa Warwick

Brasis adentro, produções musicais borram as fronteiras entre o que é tradição e o que é vanguarda. Para além do que muitas vezes categorizamos como os centros de nossas culturas, as músicas brasileiras das bordas são repertórios de jornadas de vida, hábitos e comportamentos.

Nesses Brasis, histórias não são contadas: são cantadas. Em sua força como registro e contação de nossa cultura, a música é linguagem para compreender comportamentos e cenários brasileiros.

Em muitas pesquisas exploratórias, os sons dos lugares nos dão importantes pistas do que é o insumo de inspiração criativa historicamente (o que permanece reverberando em um grupo social) e o que há de transgressor por vir (antes de falar sobre o novo, costumamos cantar uma vontade de novidade). Em campos e imersões, ouvir e seguir os sons e celebrações musicais é algo fundamental: uma roda de conversas, uma sanfona no final de tarde, um tambor, rabecas… verdadeiros convites a conhecer pessoas e lugares em profundidade.

Evento de abertura da Rio 2016 - foto: Daniel Ramanho / Agif / Gazeta Press
Evento de abertura da Rio 2016 – foto: Daniel Ramanho / Agif / Gazeta Press

E por falar em celebrações, as cerimônias de abertura e encerramento das Olimpíadas do Rio de Janeiro escancaram que a potência da música brasileira também é sinal da força e beleza de nossa imaterialidade. Sem aprofundar em críticas sobre as controversas decisões e os impactos da Rio 2016, os dois momentos podem ser comparados a obras (performances) artísticas que deixam um legado para o nosso imaginário.

No evento de abertura, com a estética da gambiarra sendo finalmente reconhecida como uma metodologia criativa eficaz e não como uma carência, foi valorizada a riqueza de nossos gestos, ritmos e cantos, e isso rompendo uma fronteira de hierarquização que antes separava o que era requintado do popular: lado a lado, mesmo quando não há recurso material, as energias imateriais do Brasil (com destaque para a musicalidade) são mesmo capazes de promover um espetáculo.

No encerramento, o Brasil foi convidado a encarar de frente parte de nossos cotidianos, invisíveis para muitos: Parabelo pelo Grupo Corpo, a Mestra Noemísia do Vale do Jequitinhonha mineiro e o Mestre Virgulino dançando em bonecos ao som de baião, Mateus Aleluia e seus tambores, Guaranis e seus cantos de ritos e cotidianos, para dar alguns exemplos.

Pudemos relembrar que a oralidade e a musicalidade nas diversas regiões do Brasil marcam o ritmo das atividades cotidianas, das tarefas de trabalho, da passagem do tempo. E que os toques e as frases de um som já foram as únicas linguagens possíveis para a resistência de alguns brasileiros: estética da sobrevivência utilizada para falar sobre possibilidades de libertação (como no Jongo) ou para manter viva uma história que não aparece em livros didáticos. Pelas músicas, conseguimos fazer uma necessária revisão de valores: muito do que é hoje inspirador veio das bordas e cada vez mais ocupa os centros.

Brasis das bordas: para ouvir

Expedição Voga da Coutto Orquestra / Foto Melissa Warwick
Expedição Voga da Coutto Orquestra – foto: Melissa Warwick

A banda sergipana Coutto Orquestra fez uma imersão cultural pelo Rio São Franscisco para a criação do seu álbum Voga (nome que significa movimento das remadas das embarcações, moda nova ou aquilo que está em evidência). Foram dias de pesquisa em casas, com artistas locais, mas principalmente foram dias de adentrar Brasis recuperando um caminho tão percorrido por tantos de nós e tão importante para a nossa história e cotidiano.

Zé Manoel é do Sertão e da beira do São Francisco. Ele retoma ritmos e letras de lavadeiras e de sertanejos e suas canções conversam com artistas locais e com os desejos dos grandes centros, como na letra de Fantasia de um Alecrim Dourado, adaptado do folclore.

“Se eu morasse em uma casinha na beira do rio, no interior
E acordasse com a passarada anunciando o fim da madrugada,
Foi meu amor, quem me fez sonhar com a felicidade, luz que se apagou.
Se for por mim, quando eu morrer eu quero brotar num pé de alecrim.”
(Fantasia de um Alecrim Dourado, Zé Manoel)

B_T_pgdão
B_T_pgdão

Da Bahia, emerge o B_T_pgdão, um coletivo formado por jovens artistas que pesquisam o pagode e apresentam uma releitura de sua musicalidade para o contexto urbano.

Grupo Mbeji
Grupo Mbeji

Em São Paulo, o grupo Mbeji traz uma pesquisa profunda e sensível sobre a presença feminina no samba e outros ritmos brasileiros. O grupo também organiza aulas percussivas e oficinas musicais focadas em pesquisa cultural e ancestral.

Ava Patrya Yndia Yracema é o nome do premiado disco da cantora carioca Ava Rocha que mescla histórias das cidades e das florestas em cadência harmônica.

As Bahias e a Cozinha Mineira
As Bahias e a Cozinha Mineira

As Bahias e a Cozinha Mineira: as cantoras transexuais Raquel Virgínia e Assucena Assucena se juntaram ao guitarrista mineiro Rafael Acerbi para cantar liberdade de gênero e histórias regionais como na canção Comida Forte.

Um bom passo para conhecer outros Brasis que nos influenciam e tecem o nosso cotidiano é escutando sotaques, músicas e, portanto, histórias.

Acompanhar as expressões artísticas brasileiras com atenção, para além do óbvio social e geográfico, ajuda a treinar os sentidos para aproximação de mundos que não se conhecem. Ouvir e deixar-se levar pelo som é também uma forma de começar a sentir na pele a potência da descentralização.

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Brasis adentro, produções musicais borram as fronteiras entre o que é tradição e o que é vanguarda. Em sua força como registro e contação de nossa cultura, a música é linguagem para compreender comportamentos e cenários brasileiros.

A banda sergipana Coutto Orquestra fez uma imersão cultural pelo Rio São Franscisco para a criação do seu álbum Voga (nome que significa movimento das remadas das embarcações, moda nova ou aquilo que está em evidência). Foram dias de pesquisa em casas, com artistas locais, mas principalmente foram dias de adentrar Brasis recuperando um caminho tão percorrido por tantos de nós e tão importante para a nossa história e cotidiano.

Zé Manoel é do Sertão e da beira do São Francisco. Ele retoma ritmos e letras de lavadeiras e de sertanejos e suas canções conversam com artistas locais e com os desejos dos grandes centros, como na letra de Fantasia de um Alecrim Dourado, adaptado do folclore.

Da Bahia, emerge o B_T_pgdão, um coletivo formado por jovens artistas que pesquisam o pagode e apresentam uma releitura de sua musicalidade para o contexto urbano.

Em São Paulo, o grupo Mbeji traz uma pesquisa profunda e sensível sobre a presença feminina no samba e outros ritmos brasileiros. O grupo também organiza aulas percussivas e oficinas musicais focadas em pesquisa cultural e ancestral.

Ava Patrya Yndia Yracema é o nome do premiado disco da cantora carioca Ava Rocha que mescla histórias das cidades e das florestas em cadência harmônica.

As Bahias e a Cozinha Mineira: as cantoras transexuais Raquel Virgínia e Assucena Assucena se juntaram ao guitarrista mineiro Rafael Acerbi para cantar liberdade de gênero e histórias regionais como na canção Comida Forte.

Acompanhar as expressões artísticas brasileiras com atenção, para além do óbvio social e geográfico, ajuda a treinar os sentidos para aproximação de mundos que não se conhecem.

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