Mundo de excessos: luxo preciso

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Os sintomas de uma cultura de excessos que, ao incentivar o hábito de consumir, tem transformado tudo em vulgaridade

por Rony Rodrigues

Olhe em volta e tente contar quantos estímulos competem pela sua atenção enquanto você começa a ler o artigo. Quantos “to-do’s” lhe impedem de se concentrar neste texto que está em sua tela? E se o celular tocar? Quantos posts já esperam pelo seu “curtir”, somente hoje?

Vivemos em um mundo de excessos e nossa educação tem se voltado, cada vez mais, para o hábito de consumir. Observo crianças que, antes de darem os primeiros passos, já possuem o quarto decorado, um guarda roupa pensado para todo tipo de evento social, uma agenda tão complexa que a visita de um parente próximo só será possível em três meses. Crescem acreditando que é normal ter tudo e se tornam adultos frustrados.

Somos soterrados diariamente pelo impacto publicitário, variantes de produtos, ofertas, chamados como “must have” e editorias que parecem um encarte de varejo com a mensagem intermitente de ter e acumular. E essa cultura do excesso transformou tudo em vulgaridade.

Luxo pode ser tudo que não é vulgar, mas é preciso que contenha também os signos do dispêndio de energia, da exclusividade e do não necessário.

Muitas vezes, consumir algo considerado luxuoso corresponde ao desejo de inclusão ou afirmação da identidade, que são necessidades básicas, portanto, deixa de ser luxo. A rotina de alguém pode ser a maior extravagância para outros, o que confirma que estamos falando de um conceito relativo.

Acho engraçado esta moda de dizer que tempo é o novo luxo. O tempo, por mais que a gente se perca na administração, é um recurso abundante, disponível a todos (ou seja, nada exclusivo) e, mais do que necessário, é ele que determina a nossa condição humana.

Também percebo que existe uma confusão envolvendo os produtos premium. Não basta ser caro e ter qualidade para ser considerado luxo. A massificação e uma produção em larga escala me provocam dúvidas sobre o grau de exclusividade de certas aquisições. Tenho essa sensação de que existem mais lojas da Louis Vuitton espalhadas pelo mundo do que uma rede fast fashion como a Topshop, por exemplo.

É difícil precificar uma obra-prima, assim como produtos que atingem o status de arte. Nesse contexto, é aceitável que uma mulher decida possuir uma bolsa muito cara. Agora, se esta mesma mulher resolve que precisa de cem bolsas, independente do preço, isto sim é um exagero.

Halfsies

O hábito do “glutonismo” e os grandes banquetes da Idade Média, em que a ordem era servir a quantidade que alimentaria vinte pessoas para apenas um soldado vitorioso de batalha, eram reconhecidos códigos de luxo. Desde a Revolução Francesa, reforçada pelo nova onda do healthy and wellness nos anos 1970, a gastronomia vem se desvinculando de uma experiência de excesso.

Daqui a algum tempo, a imagem de uma mulher insegura diante de um closet lotado de sapatos vai nos suscitar uma sensação tão descabida quanto aquela dos gulosos da Grécia, que comiam deitados para que pudessem desmaiar logo após se fartarem.

A próxima geração dos consumidores de luxo já pratica esta nova consciência. Códigos monarcas e de heritage não conversam mais com esses jovens que trocaram quilates por gigabytes e procuram marcas que lhes convidem a olhar para o futuro, em vez de símbolos que permanecem arraigados em sua grandeza do passado.

Numa época em que qualquer produto pode ser copiado simultaneamente ao seu lançamento, o luxo significa entender o espírito do tempo e proporcionar uma experiência de acordo com os novos códigos. Uma combinação harmoniosa que provoque a sensação de que a sua presença, vivendo este espaço, neste momento, é o que faz a diferença.

Luxo não combina com ansiedade, é um conceito que precisa de espaço, tempo e pertinência. É sair pra jantar num restaurante em que o serviço é inteligente, a comida é gostosa e na proporção da sua fome, sua bebida preferida está no copo, a luz te favorece. Luxo é precisão. É mais experiência e menos material.

Como aquela viagem incrível que ultrapassa nossas expectativas, amplia os horizontes e deixa um legado na memória. Um objeto que traduza da melhor forma sua perspectiva de mundo. É a arquitetura de uma casa projetada para você, que vença o tempo e ainda respeite sua história, suas lembranças marcantes e sinalize os seus sonhos futuros. A exclusividade vem do seu protagonismo. É só seu. E lembre-se, tudo isso sem a necessidade de compartilhar nas redes sociais.


Texto publicado originalmente na revista Wish.

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Vivemos em um mundo de excessos e nossa educação tem se voltado, cada vez mais, para o hábito de consumir. Antes de darem os primeiros passos, crianças já possuem o quarto decorado, um guarda roupa pensado para todo tipo de evento social, uma agenda tão complexa que a visita de um parente próximo só será possível em três meses. Crescem acreditando que é normal ter tudo e se tornam adultos frustrados.

Muitas vezes, consumir algo considerado luxuoso corresponde ao desejo de inclusão ou afirmação da identidade, que são necessidades básicas para o reconhecimento, portanto, deixa de ser luxo. A rotina de alguém pode ser a maior extravagância para outros, o que confirma que estamos falando de um conceito relativo.

Também percebo que existe uma confusão envolvendo os produtos premium. Não basta ser caro e ter qualidade para ser considerado luxo. A massificação e uma produção em larga escala me provocam dúvidas sobre o grau de exclusividade de certas aquisições. Tenho essa sensação de que existem mais lojas da Louis Vitton espalhadas pelo mundo do que uma rede fast fashion como a Topshop, por exemplo.

É aceitável que uma mulher decida possuir uma bolsa muito cara. Agora, se esta mesma mulher resolve que precisa de 100 bolsas independente do preço, isto sim é um exagero. O hábito do “glutonismo” e os grandes banquetes da Idade Média, em que a ordem era servir a quantidade que alimentaria 20 pessoas para apenas um soldado vitorioso de batalha, eram reconhecidos códigos de luxo.

Desde a Revolução Francesa, reforçada pelo nova onda do healthy and wellness nos anos 70, a gastronomia vem se desvinculando de uma experiência de excesso. Daqui a algum tempo, a imagem de uma mulher insegura diante de um closet lotado de sapatos vai nos suscitar uma sensação tão descabida quanto aquela dos gulosos da Grécia, que comiam deitados para que pudessem desmaiar logo após se fartarem.

O luxo significa entender o espirito do tempo e proporcionar uma experiência de acordo com os novos códigos. Uma combinação harmoniosa que provoque a sensação de que a sua presença, vivendo este espaço, neste momento, é o que faz a diferença.

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