Ídolos reinventados: influenciadores digitais e representatividade

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Evolução tecnológica abre espaço para novos modelos, que aumentam a representatividade e elevam o poder de transformação no mundo real

por Brunella Nunes capa Chad Wys

Com a ascensão das redes sociais, eis que uma pergunta bate à porta dos que nasceram até os anos 2000: como está a juventude hoje? Em quem se espelham? Quais são seus anseios? As respostas parecem cada vez mais distantes de uma exatidão. Em outros tempos havia ídolos intocáveis e um modelo preestabelecido a ser seguido — nascer, crescer, trabalhar, casar, ter filhos e envelhecer. Hoje fica difícil aplicar tais regras, pois não há mais espaço para que elas se formem e se consolidem como objeto de ordem e segurança. Quebrar regras não é novidade, mas, o que acontece atualmente, é que os padrões estão se esvaindo à medida em que a nova geração toma forma.

“Os jovens são mais criativos hoje não porque têm maior capacidade inventiva, mas porque estão a par das tecnologias, a par de uma mudança.” — Rafael Araújo, professor e cientista social

Dito isso, pode-se notar um dos lados que reflete a nova economia: as redes sociais como fonte de renda e inspiração. Com ela não se ganha mais apenas curtidas ou uma legião de fãs, mas influência, poder aquisitivo e independência, especialmente aos mais jovens. Pessoas, mais do que nunca, têm em mãos o poder de se transformar em mercadoria. O que antes era coisa de celebridades de Hollywood agora está ao alcance de todos. Tal premissa ganhou o nome de digital influencer. O influenciador digital é um termo designado para pessoas bem relacionadas no mundo virtual, com alcance de voz e imagem a milhões de pessoas. Assim surge mais um nicho no mercado frenético das redes.

De início, o Instagram era uma plataforma para que todos compartilhassem seu dia a dia em pequenos fragmentos fotográficos de 640×640. O crescimento desta e de outras redes sociais fez com que as pessoas não só criassem interesse mas tivessem de participar para estarem inseridas socialmente, pois o mundo virtual é assunto constante no mundo real.

Quando os pais começaram a “invadir” o Facebook, houve uma queda de 11 milhões de usuários jovens no site, que migraram para outras redes por sentirem que sua privacidade se esvaiu, além de passarem por situações constrangedoras com a família — as broncas de mãe se tornaram públicas e online.

Instagram e Snapchat levaram vantagem, pois eram espaços próximos de seus ídolos e distantes dos familiares. O YouTube também ganhou muitos adeptos entre 2011 e 2013 com a ascensão dos vloggers, em sua maioria pessoas com menos de 25 anos. Reunindo mais de um bilhão de usuários, é de lá que hoje saem muitos dos novos ídolos teens como Kéfera Buchmann, Felipe Neto, Lindsay Woods e Christian Figueiredo. Todos eles conquistaram sua independência financeira com vídeos no YouTube, antes de chegar aos 25. Com tanto sucesso, ser youtuber foi de hobby à profissão. É, inclusive, comum ouvir crianças dizendo que querem ter um canal e adolescentes já se transformando em verdadeiros produtores de conteúdo digital.

O esgotamento da imagem

De início, as celebridades das redes sociais eram interessantes porque eram diferentes das que apareciam na TV. Pessoas reais, não personalidades montadas para agradar o público e serem politicamente corretas. Mas, à medida que os perfis passaram a ter uma dinâmica de negócio, nem todo mundo conseguiu manter seu valor inicial. Originalidade e humanidade começaram a ficar cada vez mais raras na internet, e, inevitavelmente, essa premissa acaba invadindo o mundo real. O resultado: não é saudável nem para quem consome o conteúdo, nem para quem o produz.

Com as barreiras entre real e virtual se misturando, nota-se que, quando o virtual começa a ser tomado como única realidade, as coisas podem ficar perigosas. A jovem australiana Essena O’Neill, com 18 anos, mais de 600 mil seguidores e muitos contratos com marcas, cansou da vida de webcelebridade e chutou o balde de maneira inesperada. “Eu nunca estive tão miserável. Likes, visualizações e seguidores não são amor.”, desabafou em sua rede social. No perfil antigo, começou a escrever verdades tristes sobre as fotos que postava.

“Mais uma foto tirada puramente para promover meu corpo de 16 anos de idade. Isto era toda a minha identidade. Era tão limitador. Fazia com que eu ficasse incrivelmente insegura. Vocês não fazem ideia.”
“Mais uma foto tirada puramente para promover meu corpo de 16 anos de idade. Isto era toda a minha identidade. Era tão limitador. Fazia com que eu ficasse incrivelmente insegura. Vocês não fazem ideia.”

“Toda rede social é um espelho das disparidades da sociedade. O Facebook é um pouco mais democrático pois as palavras podem projetar ideias de pessoas que se tornam populares por meio da escrita. O Instagram força a reafirmação de um estilo de vida e estética específica que cai mais no gosto e que reforça a mitologia moderna do famoso que é famoso por ser famoso. Até existe espaço para irreverência e reflexão, mas o que voga numa rede de imagens é a imagem que se projeta.” — Frederico Mattos, psicólogo

Alastram-se casos como os de Essena. Pessoas estão ficando fartas desta mania de perfeição, indo na contramão de um movimento frenético que torna difícil a exposição de falhas e tira a diversão dos dias. Dentro de tal realidade, ficou provado que não é suficiente apenas gerar conteúdo, é necessário ter conteúdo. A imagem esgota-se em si mesma e, mais cedo ou mais tarde, o sucesso só pode ser sustentado se houver qualidade no conteúdo oferecido.

Ídolos conscientes

Uma contracorrente de pessoas tangíveis, com maturidade e consciência ganha força. Esta leva de influenciadores digitais representa não só a si mesma, mas uma parcela da população que encontra uma voz para ecoar seus sentimentos, angústias, desejos e lutas.

Alguns podem argumentar sobre os malefícios da conexão quase que integral com o mundo digital. Mas a exposição se amplia um jeito bastante positivo. A internet é cenário de debate de assuntos importantes, traz à tona o diálogo, dá voz às minorias e desmistifica antigos tabus. Enquanto na escola se falava sobre o feminismo de quase 60 anos atrás, hoje ele é assunto constante, atual e que ganhou muita força depois de se propagar nas redes sociais.

Jout Jout é uma das meninas que passou a abordar o feminismo em seu canal. Ela influencia garotas a reconhecer relacionamentos abusivos, por exemplo, além de mostrar para os garotos que o conservadorismo machista já não cabe mais na sociedade e precisa acabar de uma vez por todas.

Dona do canal Afros e Afins, Nátaly Neri, 22, fala sobre moda acessível, negritude e temas sociais. Jovens como a Nátaly conseguem dialogar de maneira direta e mais fácil com os demais por meio das redes sociais, alcançando não só um público mais abrangente, mas elevando o debate e até mesmo a autoestima de quem assiste, porque a representatividade é uma maneira ter pautas contempladas e sua imagem celebrada. O espaço dentro da internet é de aceitação e respeito. Enquanto ainda lidam com o preconceito no mundo real, a internet é um refúgio e, para alguns, o lar que nunca tiveram.

Helen Ramos também levanta a bandeira feminista sob a perspectiva da maternidade. Seu canal, Hel Mother, trata com personalidade e pé no chão de assuntos como puerpério, mercado de trabalho e mother shaming. Ela acolhe e representa as mães modernas com o lema “maternidade sem caô”, lembrando todo o mundo de que uma mulher não deixa de ser mulher depois de ter filhos.

Transformar para transcender

Com bons exemplos no meio do caminho, pode ser que a nova geração encontre meios para criar um cenário digital não superficial. A ascensão de ídolos jovens reais, cheios de ideias transgressoras, abre espaço para discussão e expansão de um pensamento livre do conservadorismo do passado. O tema ultrapassa gerações e traz reflexão.

Nesse caso, um dos pontos mais positivos da internet é criar um espaço democrático e seguro para que as ideias fluam além das barreiras físicas. No livro Sociedade em Rede, lançado em 1996, o sociólogo espanhol Manuel Castells discorre sobre os reflexos da sociedade em rede na economia e na convivência social em todo o mundo a partir do fenômeno da internet que emergia há 20 anos. Segundo ele, o papel da sociedade em rede era o de mudar os valores sobre os quais a sociedade está organizada. “O que as tecnologias fazem é proporcionar um amplo leque de possibilidades. O que acontece, depois, com as tecnologias, depende do que acontece na sociedade.”

Em 2008, o youtuber e ativista LGBT Tyler Oakley fez um vídeo sobre autenticidade, contando como era importante sair do armário e se assumir gay no momento certo. Anos depois, já com alguns milhões de inscritos em seu canal, ele recebeu no Twitter uma mensagem do cantor Ricky Martin, dizendo que o vídeo foi parte importante para que ele assumisse publicamente sua homossexualidade.

Dizer que “essa geração está perdida” porque “só fica na internet” é falacioso. A questão central na reinvenção dos digital influencers é justamente criar laços mais saudáveis. E, além disso, os nativos digitais já conseguem, através de uma linguagem muito democrática, desconstruir paradigmas para avançar socialmente. A profundidade de pensamento não precisa ser difícil. O valor deste novo ídolo não está na projeção de uma utopia, mas na representatividade e na identificação.

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No início, as celebridades das redes sociais eram interessantes porque eram diferentes das que apareciam na TV. Pessoas reais, não personalidades montadas para agradar o público e serem politicamente corretas. Mas, à medida que os perfis passaram a ter uma dinâmica de negócio, nem todo mundo conseguiu manter seu valor inicial. Não é saudável nem para quem consome o conteúdo, nem para quem o produz.

Com as barreiras entre real e virtual se misturando, nota-se que, quando o virtual começa a ser tomado como única realidade, as coisas podem ficar perigosas. Pessoas estão ficando fartas desta mania de perfeição. A imagem esgota-se em si mesma e, mais cedo ou mais tarde, o sucesso só pode ser sustentado se houver qualidade no conteúdo oferecido.

Uma contracorrente de pessoas tangíveis, com maturidade e consciência ganha força. São jovens que se mantêm informados para poder repassar informação clara e concisa, como demanda o público e dos novos meios de comunicação. Esta leva de influenciadores digitais representa não só a si mesma, mas uma parcela da população que se encaixa naquele perfil e encontra uma voz que passa a ecoar seus sentimentos, angústias, desejos e lutas. O espaço dentro da internet é de aceitação e respeito. Enquanto ainda lidam com o preconceito no mundo real, a internet é um refúgio e, para alguns, o lar que nunca tiveram.

Com bons exemplos no meio do caminho, pode ser que a nova geração encontre meios para criar um cenário digital não superficial. A ascesão de ídolos jovens reais, cheios de ideias transgressoras, abre espaço para discussão e expansão de um pensamento livre do conservadorismo do passado. O tema ultrapassa gerações e traz reflexão. Nesse caso, um dos pontos mais positivos da internet é criar um espaço democrático e seguro para que as ideias fluam além das barreiras físicas.

Dizer que “essa geração está perdida” porque “só fica na internet” é falacioso. A questão central na reinvenção dos digital influencers é justamente criar laços mais saudáveis. E, além disso, os nativos digitais já conseguem, através de uma linguagem muito democrática, desconstruir paradigmas para avançar socialmente. A profundidade de pensamento não precisa ser difícil. O valor deste novo ídolo não está na projeção de uma utopia, mas na representatividade e na identificação.

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