Brasis invisíveis influenciam economia e consumo

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Culturas brasileiras ditas periféricas formam opinião e influenciam centros econômicos

por Mayra Fonseca capa Suann Medeiros

Uma menina adolescente brinca com a irmã mais nova pelo celular e descobre, pela Internet, a página da mulher que está diante de si conduzindo uma entrevista com o seu professor. A adolescente adiciona a mulher em uma rede social e as duas começam a conversar. Dez dias depois e a primeira torna-se professora, em ambiente digital, da segunda: dá aulas de Guarani para a mulher que precisa revisar seu projeto. A menina, que mora em uma aldeia no perímetro urbano de São Paulo, sugere que elas se encontrem em uma estação de metrô da Zona Oeste para aulas presenciais.

Quem influencia quem?

Uma menina é professora de uma mulher. A indígena é quem domina o idioma. A aldeia com baixos índices sócio-econômicos influencia alguns dos metros quadrados mais caros da maior cidade do país.

A situação é um exemplo crescente e não um caso isolado. Nas últimas décadas, fica cada vez mais evidente como os centros de culturas brasileiras podem ser formadores de opinião e influenciadores para centros econômicos que buscam respostas para perguntas nada fáceis do contemporâneo:

Como saber a origem dos alimentos? Como conseguir conviver, de forma harmônica, com o diferente? Como praticar a sustentabilidade no cotidiano? Quais são os modelos de criatividade que dão conta de nossas verdades?

Aldeias indígenas, populações ribeirinhas, quilombolas, sertões, roças caipiras, interiores híbridos, as pontas do urbano, os centros ignorados: na prática cotidiana de quem já entendeu que é preciso se inventar e se expressar de outras formas, nas ditas periferias de Brasis que não conhecemos, estão boa parte dessas respostas.

Bicicletas transportam moradores de Afuá, Ilha de Marjó, no Pará: o lugar é considerado exemplo de mobilidade no mundo. Foto: Anderson Coelho
Bicicletas transportam moradores de Afuá, Ilha de Marjó, no Pará: o lugar é considerado exemplo de mobilidade no mundo. Foto: Anderson Coelho

Ditas periferias primeiro porque é preciso questionar a intenção dessa categoria: vamos sempre querer marcar às margens — do outro lado — essas histórias e pessoas com as quais temos tanto para aprender? Será que não é hora de entendermos o valor criativo e transformador da diversidade? Já está claro que não damos conta de falar sobre o outro, precisamos falar com o outro.

Vale questionar também a categoria de periferia para um grupo de pessoas que não se encaixam nem nas melhores classificações sócio-econômicas que temos. Por exemplo, alguns domicílios às margens, dos rios, desafiam os critérios: não possuem estrutura de saneamento, mas fossas naturais; suas casas possuem várias televisões, mas investem pouco dinheiro em compras de alimentos porque sua subsistência está nas hortas e nas águas; é possível que alguns pais de família não tenham nenhuma educação formal, mas alguns deles são exímios construtores de instrumentos musicais. A qual classe essas pessoas pertencem? Provavelmente a uma daquelas que tem muito a nos ensinar, gosto de chamá-los de Mestres do Cotidiano.

Nada é mais contemporâneo do que a tradição

Na intenção de olharmos para potenciais criativos de outras formas, enriquecermos nossos repertórios e praticamos uma imaginação para a justiça, precisamos entender que tradição não é antônimo de tendência, mas sinônimo de originário (pra usar um termo que o Povo Mundukuru, do Tapajós, usa para explicar seu estilo de vida e seus direitos).

Os cenários de tradição brasileira — como também do corriqueiro e cotidiano — são aqueles onde resistem e são reinventadas as pequenas engenharias do ser humano: o comer, o vestir, o relacionar-se, o imaginar e o criar.

Rendeira de Renascença no Cariri paraibano: coleção Histórias Rendadas da estilista Fernanda Yamamoto. Foto: André Seiti e Richner Allan
Rendeira de Renascença no Cariri paraibano: coleção Histórias Rendadas da estilista Fernanda Yamamoto. Foto: André Seiti e Richner Allan

Foi em um desses cenários que a estilista Fernanda Yamamoto imergiu para criar a sua última coleção: o Cariri paraibano em volta da cidade do Congo, uma área com cerca de 7 mil km quadrados e 128 mil habitantes que é onde o povo Cariri morava antes de migrar para a região do mesmo nome no Ceará. Da convivência de Yamamoto com mulheres rendeiras de Renascença, surgiram Histórias Rendadas.

A grande maioria dessas rendeiras mora em zona rural, em pequenas casas com plantações de palmas em seus quintais (planta que ali é alimento para animais e não ornamento) e, apesar de suas roupas de Renascença serem conhecidas nas feiras das cidades maiores do Nordeste, elas não conseguem comprar (ou deixar de vender) uma peça para si. Já que olhar para a escassez, postura recorrente sobre o repertório brasileiro, é pouco propositivo para quem se interessa por impacto positivo + criatividade + resultado, convido:

E se olharmos para o que há de matéria-prima e ensinamento em nossas práticas cotidianas?

Foi com esse olhar de pesquisa que Fernanda e sua equipe entenderam que ali estava uma técnica tão bonita quanto eficaz para novas tramas de vestuário, e também para novas tramas entre mulheres. Sua coleção foi celebrada pela reconhecida qualidade em alta costura, mas também por ter sido uma plataforma para aproximação de Brasis que não se conheciam, um projeto de igualdade de sócio-econômica, um manifesto sobre o feminino.

Tucum Brasil
Tucum Brasil

Um exemplo de produto e serviço que emerge das ribeiras para os centros é a Tucum Brasil, um serviço ativista de difusão e comercialização de arte indígena (para o corpo, para a casa, design) que acontece em loja digital e física e feita por um coletivo formado por antropólogos, fotógrafos, profissionais de beleza e indígenas. Além de pesquisar e compartilhar o modo de vida e produção de culturas indígenas, a Tucum tenta compreender formas de implementação de uma educação financeira e comercialização justa que considere tanto o pensamento indígena quanto o pensamento não-indígena. Em um primeiro olhar, a Tucum pode ser entendida como lojas no Rio de Janeiro (uma em Santa Teresa e outra em Ipanema), mas na verdade essa iniciativa é uma trama de aproximação de mundos por meio da valorização da estética de nossos povos originários.

A cantora maranhense Zahy Guajajara está na programação da Rádio Yandê
A cantora maranhense Zahy Guajajara está na programação da Rádio Yandê

Como nova forma de pensar e fazer comunicação e articulação, a Rádio Yandê é a primeira rádio web indígena do Brasil. Yandê é uma plataforma de conexão e amplificação do modo de viver indígena feita por jovens de diversas etnias que moram em aldeias mas também nos centros urbanos. Imersos no que estamos acostumados a considerar contemporâneo, seu objetivo é “a difusão da cultura indígena através da ótica tradicional, mas agregando a velocidade e o alcance da tecnologia e da internet”.

Das rendeiras de Renascença aos pensadores indígenas, somos cada vez mais influenciados por pessoas que borram qualquer fronteira de classe e essa influência também impacta as gôndolas do supermercado. Variáveis que dizem respeito à criatividade cotidiana e à energia cultural apresentam-se como moedas de troca e deveriam ser consideradas quando pensamos em quem são os influenciadores de comportamento na sociedade.

Olhar para as transformações recentes no comportamento do consumo dos brasileiros abre frestas para tudo que podemos aprender com pessoas com as quais não convivíamos há pouco tempo. O interessante de questionar a miopia por trás das classificações generalistas que mais nos afastam do que aproximam dos cenários que precisamos observar é que, junto a essa nova capacidade de olhar para Brasis que a gente não vê, há a possibilidade de aprender outras histórias e técnicas também nossas.

E esse talvez seja um excelente benefício de estarmos, finalmente, todos conectados, ainda que de forma digital. Assim temos mais acesso e possibilidade de troca de produtos e informações que antes poderiam ser reduzidos a exóticos ou de nicho e podemos começar a sentir que, na verdade, eles são indícios de que adentro (na direção de nossos interiores geográficos e histórias de vida) encontramos muita inspiração.

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Nas últimas décadas, fica cada vez mais evidente como os centros de culturas brasileiras podem ser formadores de opinião e influenciadores para centros econômicos que buscam respostas para perguntas do contemporâneo: Como saber a origem dos alimentos? Como conseguir conviver, de forma harmônica, com o diferente? Como praticar a sustentabilidade no cotidiano? Quais são os modelos de criatividade que dão conta de nossas verdades?

Aldeias indígenas, populações ribeirinhas, quilombolas, sertões, roças caipiras, interiores híbridos, as pontas do urbano, os centros ignorados: na prática cotidiana de quem já entendeu que é preciso se inventar e se expressar de outras formas, nas ditas periferias de Brasis que não conhecemos, estão boa parte dessas respostas.

Os cenários de tradição brasileira — como também do corriqueiro e cotidiano — são aqueles onde resistem e são reinventadas as pequenas engenharias do ser humano: o comer, o vestir, o relacionar-se, o imaginar e o criar.

Somos cada vez mais influenciados por pessoas que borram qualquer fronteira de classe e essa influência também impacta as gôndolas do supermercado. Olhar para as transformações recentes no comportamento do consumo dos brasileiros abre frestas para tudo que podemos aprender com pessoas com as quais não convivíamos há pouco tempo.

O interessante de questionar a miopia por trás das classificações generalistas é que, junto a essa nova capacidade de olhar para Brasis que a gente não vê, há a possibilidade de aprender outras histórias e técnicas também nossas. Essas possibilidades são indícios de que adentro (na direção de nossos interiores geográficos e histórias de vida) encontramos muita inspiração.

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Vá Além

Festival Os Brasis

Residência artística na qual 9 criadores foram selecionados via edital aberto a criar narrativas para a história de 4 Mestras e Mestres de cultura brasileira que moram em São Paulo.

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